2005/05/31
Livros: O jardim da Europa

Lembrei-me dele por causa do referendo à Constituição Europeia deste domingo em França. O último livro de João Aguiar, O Jardim das Delícias, é precisamente sobre a Europa e sobre os riscos de uma construção europeia que passa imperceptivelmente de espaço de liberdade para espaço de controlo e de destruição das liberdades individuais. O fantasma que ele explora é o de uma Europa tão "boa" que pensar de forma crítica sobre as burocráticas e distantes instituições europeias é um crime de pensamento e expressar essa crítica é algo intolerável. E esse fantasma vive da forma como a discussão da Europa se faz com uma linguagem tão diplomática e politicamente correcta que se pode concretizar em qualquer coisa, boa ou má.
O referendo em França lembrou-me este livro do João Aguiar (que eu comecei a ler e ainda não terminei) porque acho que foi precisamente este fantasma da Europa controladora e distante que contribuiu para a vitória ao "não". Foi curioso ver as pessoas nas ruas a festejar com tanta alegria essa vitória... Será que os políticos europeus perceberam o sentido dessa celebração?
2005/05/21
Livros: Jonathan Stange & o Sr. Norrell

Devo dizer que foi isso que me prendeu quando vi um monte de livros negros e brancos empilhados com um cartaz por cima que dizia: "o melhor romance de fantasia desde O Senhor dos Anéis"... Tinha acabado de sair e quando peguei num dos volumes soube que não ia resistir, tinha que levar um comigo e começar a lê-lo nessa mesma noite.
Foi assim que fui convidado a conhecer Jonathan Strange & o Sr. Norrell, dois magos que vivem numa Inglaterra diferente no início do século XIX. E digo diferente porque nessa Inglaterra a magia, apesar de não se sentir há muitas décadas, é uma memória viva e não há cavalheiro respeitável que não se dedique ao seu estudo. É aí que encontramos o Sr. Norrell, um senhor que aos 17 anos já era velho e cuja fobia social não o ajuda muito na causa de restaurar a magia, mostrando a todos que está viva, pois ele consegue-a praticar. Ironicamente, é quando ele começa a tornar-se útil e conhecido como mago que aparece Jonathan Strange, um cavalheiro rico e ocioso, que encontrou a magia como passatempo mas que descobriu em si um verdadeiro talento. O Sr. Norrell toma-o primeiro como discípulo e depois como rival, cumprindo-se assim a profecia antiga de que dois magos surgiriam em Inglaterra e que desse encontro resultariam grandes sucessos e uma rivalidade crescente. Rivalidade, curiosidade, raiva, inveja, amor, amizade... É simplesmente com essas emoções e sensações que se tece este livro, porque a mais complexa e distante fantasia não é mais do que isso: nós próprios vistos num espelho distorcido.
2005/05/19
Segundos...

Florbela Espanca
2005/05/16
Filmes: Noite escura

Vi a apresentação deste filme há muito tempo mas o interesse que me despertou não chegou para o ir ver ao cinema. Não... Este filme estava guardado para que eu o visse, por acaso, enquanto atravessava o Atlântico num avião da TAP. Quando apanhei o filme, já tinha começado há algum tempo mas encontrei o fio de uma história que se adivinha facilmente.
Uma casa de alterne na província, numa província qualquer deste Portugal que se esconde e se revela em tantos lugares. Uma família que gere essa casa de alterne, um negócio que corre mal, uma dívida saldada com a venda da própria filha a uma máfia russa, uma tragédia que se espera e se adivinha. As máscaras, os silêncios, a violência das palavras, a tensão crescente...
Fiquei preso ao ecrã, um ecrã pequeno, avermelhado, mas mesmo assim hipnótico... Hipnótico pelos diálogos, pela sordidez do pequeno mundo que se revela aos nossos olhos. E no fim, apenas um buraco no estômago, uma sensação de vazio...
2005/05/11
Sensações... de saber estar acorrentados...

Há uns tempos, num blog aqui perto, (Um ano de ti) este recente pai partilhava connosco que o seu chefe gritava bem alto, a queixar-se que jamais tinha casado...que não tinha tido tempo para ter filhos... tudo (imaginem só a arrogância!) pelo bem-estar da Empresa! Para que TODOS pudessem ter hoje trabalho! (ele, chefe, salvou o Mundo e ninguém tinha dado por isso...é triste de facto) O medo... como arma de trabalho. A culpa...como arma da eficácia da mensagem.
Este homem, que é o "Chefe" revela sofrer de perturbações graves e profundamente comuns nos dias que correm. Mas são estes os Chefes que hoje valorizamos. Porque não têm vida pessoal, porque não têm vida. Simplesmente. Estes, não olharão a meios para atingirem os fins... e serão por isso, bem sucedidos. Ou bem sucedidas. Que "elas" também existem por aí... ainda que em menor número.
Numa altura em que os números revelam que Portugal é o País onde a Mulher / Mãe trabalha mais horas em comparação com a restante Europa... é natural que o nº de Homens aumente na gestão e liderança das Empresas porque, a mão-de-obra produtiva está nas fábricas e não nas megalómanas Empresas que “farsamente” gerem recursos económicos. É natural que José Sócrates não decida por recrutar Mulheres para o Governo nem assumir o pagamento total de 150 dias de licença de maternidade. Afinal, quem tem os filhos são as mulheres de facto. E quem pode estar na empresa 24h/dia... são na sua maioria, os homens. (sem “h” grande) Na empresa onde trabalho, não conheço uma mulher como 1ª Linha (Direcção Geral e/ou Administração).
Que me perdoem alguns Homens meus amigos pela tamanha generalização. Mas para além de meus amigos (alguns) também gerem Empresas e nessas empresas mulheres bem profissionais ... e mães.
Quanto menos emoções melhor... menor a fragilidade.
Parabéns à sociedade portuguesa pela capacidade de adaptação. Quem sabe se em breve um Referendo sobre "o que representamos nós cidadãos, na escolha de um Estado Democrático?"
Eu atrevo-me a responder à pergunta: nada apenas a farsa de sermos democratas.
2005/05/09
Música: Som de whiskey e fumo

Habituei-me há algum tempo a confiar nas sugestões do Mezzo, o canal de música mais refrescante que a televisão por cabo nos oferece. Por isso não tive muitas dúvidas em procurar esse disco misterioso do qual nunca tinha ouvido falar. Encontrei-o e descobri uma voz que soa a whiskey e a fumo e que às vezes faz lembrar Billie Holiday. Peyroux tem trinta anos, é americana mas viveu em Paris como música de rua até o sucesso lhe bater à porta em 1996, de forma inesperada, com Dreamland, o primeiro disco. Mas 200.000 cópias vendidas não chegaram para a manter à tona de água numa indústria em crise e Careless Love teve que esperar oito anos para ver a luz do dia. E ainda bem que ela conseguiu assinar pela Rounder Records em 2003 e editá-lo, porque assim podemos ouvi-la cantar um Dance me to the end of love capaz de fazer corar o próprio Cohen ou um Don't wait too long que nos faz esperar pelo resto do álbum...
2005/05/06
Filmes: E para além dos intérpretes?

Foi com esta disposição tranquila e receptiva que entrei no cinema Londres e comprei os bilhetes para A Intérprete. Duas horas depois, saí entretido, satisfeito com os actores (Nicole Kidman e Sean Penn estão mesmo muito bem!) mas desiludido com a história. Coincidências demasiado forçadas, personagens tão "típicas" que mais parecem caricaturas, relações aparentemente tão fortes mas sem que se justifique muito bem porquê, um paralelo pouco subtil entre o imaginário Matobo e o real Zimbabwe...
Kidman e Penn bem tentam compensar as falhas do argumento, mas o que fica é só isso. Uma boa ideia de partida, a curiosidade de ser o primeiro filme rodado nas Nações Unidas e um filme com bons actores que entretem mas que se esquece com facilidade.
2005/05/04
Livros: Há vida nestas fotos...

Na semana passada, lembrei-me do livro. Fui à Amazon e encomendei-o... Chegou há dois dias e ontem passei o serão a passar página após página, foto após foto. John F. e Robert F. Kennedy, Fidel, o Che Guevara, Marilyn Monroe, a II Guerra Mundial, a Guerra Civil Espanhola, o Vietname... Sente-se a vertigem do século XX, tal como a Life o publicou, semana após semana, entre 1936 e 1972.