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2004/05/30

Segundos... 

Isso, deita-te em mim e finge que não sabes que eu estive toda a noite acordado à tua espera.

a. j. valverde

2004/05/29

Música: Um saxofone e quatro vozes 

Um saxofone que improvisa, uma voz que responde, um saxofone que regressa, os sons que se fundem tal como o jazz se funde com a música antiga. É assim este Mnemosyne que Jan Garbarek e os Hilliard Ensemble nos oferecem.

A receita é arrojada e consiste em fundir dois mundos aparentemente desconexos. A música antiga dos Hilliard é um livro de memórias vivas, memórias que começam no início da polifonia e que se estendem pelos séculos. O jazz de Garbarek aparece aqui na sua forma mais etérea e livre. Um jazz que solta a voz do saxofone e que o deixa fundir-se com as outras vozes. E essa a magia deste disco, a magia de uma fusão inesperada que desperta os sentidos.

Fica o convite... Ouse descobrir este som.

2004/05/28

Livros: Mulheres que amam demais 

Não conhecia Robin Norwood. Igualmente não sinto que tenha ficado a conhecer. Há num entanto um aspecto, que não posso deixar de considerar. Simplicidade. Simplicidade nas palavras, nas experiências, na partilha de vidas reais. Chegará concerteza a todas as mulheres que amam demais. E por isso assumem um padrão de sofrimento. [Conceito curioso este!] Pressupõe que há sempre um Homem ou um Mulher que se ama em excesso com natural consequência prejudicial e aglutinadora. Já tinha lido uma ou outra opinião sobre o livro... (vende imenso!) mas não me seduziu. Excepção de um dia em que ao folhear uma livaria, acabo por encontrar vários textos que me retêm a leitura.

«- Não faz ideia do ponto a que cheguei para atrair a atenção dos homens. Já corri de um lado para o outro tirando a roupa, sussurando-lhes ao ouvido e pondo em práctica todos os truques de sedução que conheço. Ainda estou a tentar atrair a atenção de alguém que não está lá muito interessado em mim. Creio que a maior realização que sinto com o David, quando fazemos amor, é ser capaz de o excitar ao ponto de o distrair daquilo que ele,de facto, preferia estar a fazer. Detesto admitir isto, mas tem sido o que mais me seduz, conseguir que o David ou o Jim ou quem quer que seja me dê atenção. (...)»

Simples, não vos parece?

"Mulheres que amam demais", Robin Norwood

2004/05/26

Momentos: Delirantes... 

Que me importa a estima dos outros se eu tenho a minha? Que me importa a mediocridade do mundo se EU sou EU? Que importa o desalento da vida se há a morte? Com tantas riquezas porque sentir-me pobre? E os meus versos e a minha alma, e os meus sonhos, e os montes e as rosas e a canção dos sapos nas ervas húmidas e a minha charneca alentejana e os olivais vestidos de Gata Borralheira e o assombro dos crepúsculos e murmúrio das noites... então isto não é nada? Napoleão de saias, que impérios desejas? Que mundos queres conquistar? Estás, decididamente, atacada de delírios de grandezas!...

In "Diário do último ano", Florbela Espanca

2004/05/25

Música: Buarque, Chico 

Quando, por alguma razão, se faz uma lista mental das canções que temos presas na nuca, e que nos surpreendem ao levantar da cama, ao tomar café, ao ver um filme, ao deitar, ao amar, ao ver uma velha foto, é fácil juntar uma mão cheia delas. As que são nossas. As que vamos buscar num momento de aflição, aquelas que nos cortam o coração ou que colam os seus pedaços, conforme a ocasião. E, de súbito, ao virar de uma esquina de emoção, surge uma que nos abre os braços e o peito. Uma que não viamos há muito tempo. Uma cuja lembrança era pouco mais que uma comichão, como num membro amputado. E ao entrar em casa, ao colocar um rodela de plástico num aparelho, ao premir um botão, os sons saem para nós, por nós. E, subitamente, o tempo não existe.

Hoje, foi Chico Buarque e Olhos nos Olhos. Amanhã, ...

2004/05/24

Segundos... 

E miraculosamente, no teu olhar vi-me despontar.


Friedrich Hebbel

2004/05/23

Entre-aspas: Um chá!?! 

As luzes acendem-se. O espaço ganha formas... É uma sala de um T1. Não... Parece uma mas são quatro salas de quatro casas de quatros pessoas. Quatro pessoas, três homens, uma mulher. Só quatro?

«Estamos na casa de Alberto.
ALBERTO: Sara! Sara! Sara!
SARA: O que é?
ALBERTO: (entrando vindo da cozinha, abraçado a um saco de água quente) Chá!
SARA: (no quarto) Tenho de me ir embora.
ALBERTO: Para onde?
SARA: (entra, vestindo uma gabardina e sapatos) A minha casa. Tenho de lá ir.
ALBERTO: (sentando-se na cadeira) Não podes.
SARA: Não posso?
ALBERTO: Só um chá, Sara.
SARA: Não posso porquê?
ALBERTO: Porque eu estou doente.
SARA: E eu estou atrasada.»

T1, de José Maria Vieira Mendes.
Uma produção dos Artistas Unidos em cena no Teatro Taborda até 30 de Maio.

2004/05/22

Música: Parabéns Morrissey! 

Stephen Patrick Morrissey faz hoje 45 anos. É verdade... E o gajo está de parabéns. Depois de sete anos sem editar nada, You are the Quarry é um regresso em grande, com a voz de sempre, poemas inspirados por um cinismo ácido e um som forte, cheio de guitarras e surpreendente pela sua frescura. Mas o que mais me impressionou foram mesmo as letras... Cheias de actualidade e provocadoras na forma como arrancam reacções.

Bush aparece, anónimo, com os seus olhos azuis desprovidos de amor, calor ou humor. Mas não são só os Estados Unidos a sofrer com a mordacidade de Morrissey, porque o seu país também é despido e exposto, tal como a religião e as suas promessas. A solidão, sempre a solidão, volta uma e outra vez, com momentos de tristeza e de raiva, como quando ele pergunta como pode alguém saber como ele se sente. E o álbum acaba com ele a dizer-nos que já devíamos saber que ele não podia durar... Uma mensagem contrariada por este disco inspirado. Já tenho banda sonora para os próximos dias...

2004/05/21

Música: Old Jerusalem 

14 faixas. Imagina-se o aspecto caseiro da gravação. Uma guitarra, uma voz, uma guitarra, uma bateria minimalista, meia dúzia de poemas para começar, e o albúm surge. A criação na mais perfeita forma. Old Jerusalem e as suas composições despidas e delicadas a que chamou April.

É claro que nos surgem nomes, referências, alt-country e outros catálogos, mas a pureza é sempre mais forte e deixa que a olhemos apenas a ela.

Foi considerado pelo Blitz o albúm nacional de 2003.
Há quem o considere apenas um excelente conjunto de canções.
E nem é preciso ser Abril para o ouvir.

2004/05/20

Livros: Uma fatiazinha de transcendência 

Descobri este livro por acaso há pouco mais de um ano... Bom, por acaso não foi, porque um livro nunca se encontra por acaso. Um livro espera por nós e apresenta-se quando chega a hora de ser encontrado. Com este livro isso aconteceu enquanto eu percorria uma livraria. O local era bastante óbvio e eu acho que era sábado de manhã. Havia muita luz, pelo menos lá fora lembro-me que havia muita luz. E eu passava os olhos por tantos títulos, tantas capas, tantas imagens... Acabei por parar junto a uma pilha de livros iguais, todos com capa vermelha, um título sugestivo e um autor acima de qualquer suspeita. Peguei num deles e comecei a passar as folhas... Não passou muito tempo até que me decidisse. Paguei e levei-o comigo.

E foi assim que descobri Estes Difíceis Amores de Júlio Machado Vaz, um livro de histórias e de emoção, emoção partilhada e vivida... Um emoção quase tão forte como a sabedoria com que ele nos leva pela mão através dessas histórias. Mas eu acho que é a emoção que o leva a perguntar e a saber responder...

O que esperamos das relações? Uma fatiazinha de transcendência.

2004/05/19

Segundos... 

A invenção Deles criou-nos a Nós, e Nós podemos precisar de os reinventar a Eles para nos reinventarmos a Nós Próprios.

R. D. Laing

2004/05/18

Momentos: ...de lucidez 

Não! Não sou o príncipe Hamlet e nem tinha que ser;
Sou um fidalgo da corte, desses que servem
Para aumentar a comitiva, abrir uma ou duas cenas,
Dar conselhos ao príncipe; instrumento dócil, é claro,
Reverente, satisfeito por ser prestável,
Político, meticuloso e avisado;
Cheio de sentenças doutas, um tanto obtudo todavia;
Às vezes, por sinal, quase ridículo -
Quase o bobo, às vezes.

T. S. Eliot, A Canção de Amor de J. Alfred Prufrock

2004/05/17

Música: Canção de qual corpo? 

Quando saiu OK Computer, aclamado como obra-prima do pop-rock por críticos e pseudo-críticos musicais de todo o mundo, não se sabia ainda as voltas que o som dos Radiohead iria dar. Apos 3 discos sabe-se que eles não foram por onde se esperava, antes enveredando pela travessia das máquinas e abstrações musicais, paisagens gélidas, computorizadas, anti-humanas, efeito apenas desmontado pela voz de Tom Yorke. Mas quanto dessa nova atitude musical se devia a Jonny Greenwood? A resposta está gritada, impressa a letras garrafais, em Bodysong.

Construído como banda sonora do filme de Simon Pummel, o conjunto de faixas apresenta-se estranho por si só. Primeiro parece não haver um fio condutor, um único que seja, quer entre músicas, quer dentro das próprias, apresentadas sem pausa, numa osmose de efeitos e sons agora dispersos, depois agrupados em melodias curtas e mutantes. À segunda audição, estranha-se menos, as melodias tornam-se mais simpáticas de ouvir, sem se darem por completo, no entanto. Existem quartetos de cordas, sinos, guitarras, sons de vozes que gemem em duelo com violoncelos, batidas de jazz que se desagregam para acolher trompetes no limite,contrabaixos gordos e funky, pads que não vão a lado nenhum... tudo numa espécie de zoo de aberrações. Sim, talvez seja essa a imagem: um zoo de aberrações. Daqueles em que se entra a medo, se passeia de olhos meio tapados pelas mãos. Daqueles a que se volta frequentemente pelo medo, pelo prazer, pelo incofessável prazer pelo que é estranho.

2004/05/16

Entre-aspas: Inocentes, nós?... 

«Imagine-se um rapaz de 19 ou 20 anos, da Carolina do Sul, ou do Texas. Alista-se porque (...) - whatever that means - (...). Deixa a casa, a família, o lugar, os amigos(...) deixa tudo o que conhece. (...) As sevícias como todos sabemos, e não é preciso ver filme de Hollywood, começam logo no quartel, abusos sexuais, torturas de camarata, castigos e humilhações. O "drilling" imposto pelos sargentos é aplicado para retirar ao soldado a sua identidade humana, a sua piedade e compaixão, a sua fraqueza, e torná-lo um assassino controlado e contratado pelo Estado. (...) Para ser um soldado, e estar em condições (...), teve de ser dessensibilizado, despido de atributos humanos. Se tal não acontecesse, o rapaz chegava a Kandahar, ou Bassorá, e começava a chorar, ou a gritar, ou a querer ir-se embora. (...)

Um dia , ou uma noite, o rapaz massacra uns civis inocentes, porque perdeu o controlo dos nervos. Ou torna-se de repente num sádico. E descobre que gosta de matar. Este gosto amargo e doce, o de possuir outro ser humano, o de aviltar, o de humilhar, o de o seviciar e ser o dono dele, é um travo que fica na boca. (...)

Aconteceu sempre, aconteceu na nossa guerra colonial - as cabeças empaladas dos negros, as negras esventradas e violadas, nuas - fotografias passadas de mão em mão como símbolo de força e riso num lugar de lágrimas. É isto, também a guerra. Mas o Presidente Bush não sabe, porque nunca saiu do Texas. É como nós, um inocente. Mas é o Presidente.»

Por mim, resta-me dizer que não tenho palavras...

Crónica de Clara Ferreira Alves, Revista ÚNICA, Jornal EXPRESSO de 15 de Maio 2004

2004/05/15

Música: Rosa Carne 

E de repente, é como se fosse uma banda nova. Ou pelo menos assim se anunciava o novo álbum dos Clã. Vamos arriscar e dizer apenas que Rosa Carne é um pouco diferente, mas nem tanto assim. Ok, verdade seja dita, é muito bom. Mesmo. O melhor da carreira dos Clã. Sem dúvida. Mas a diferença passa, talvez, pela abordagem algo mais melancólica, menos pop (???), mais segura, muito mais segura e sensual, das letras e da maravilhosa e versátil voz de Manuela Azevedo, e um ar menos festivo das músicas, mais... ... ... a palavra que me surge é maduro. Maduro.

A degustar com calma, muita calma, sem juízos precipitados nem histerías colectivas, Rosa Carne é apenas mais um excelente disco neste ano de (até agora) excelente produção musical nacional.

2004/05/14

Segundos... 

Fartei-me de dúvidas
Há que viver na luz do infalível
Sul
Jim Morrison

2004/05/13

Livros: Design, muito... 

Há objectos, por vezes objecto-livro que servem apenas para olhar. Para que possamos deleitar-nos a olhar para as suas páginas. Que nos obrigam, no entanto, depois, a pensar no que vemos e o que representa para nós. Como quem olha para os objectos do dia-a-dia e pergunta de onde vem a sua forma e funcionalidade. Há quem chame a este processo, pensar o design. Em Design do sec. XX e Design do sec. XXI, através da Taschen, Charlotte & Peter Fiell, fazem-nos re-olhar os objectos, as tendências, as cores e as formas, mas principalmente pedaços da vida de todos que têm sido moldados, desde o fantástico monitor do Mac lá de casa à cadeira onde esperamos pacientemente que nos chamem para a consulta. E o mundo, subitamente, toma uma outra forma e proporção...

2004/05/12

Livros: Em busca da Arca perdida 

Tudo começou em 1983. Graham Hancock estava na Etiópia a trabalhar num livro sobre o património arqueológico do país. Como estava a trabalhar nesse projecto para o regime então no poder, conseguiu evitar a guerra civil e percorrer todo o país. Foi assim que chegou a Axum e conheceu um monge, quase cego, que lhe disse ser o guardião da mítica Arca da Aliança. Graham tinha visto pouco tempo antes "Os Salteadores da Arca Perdida", o filme de Spielberg, e lançou-se numa demanda frenética para perceber se a história fantástica que o ancião lhe tinha contado podia ter algo de verdade.

Essa aventura levou-o ao longo da geografia do mundo, conduzindo-o através de mitos que estimulam a imaginação de boa parte da humanidade há muitas gerações. Procurar a Arca da Aliança levou-o ao encontro das lendas do Graal e dos mistérios dos Templários, misturados com fontes medievais e figuras misteriosas da Bíblia como a Rainha de Sabá. Depois de quase dez anos de riscos bem reais, Hancock acabou por regressar ao local onde tudo tinha começado. Terá encontrado respostas?

2004/05/11

Música: O verdadeiro Elvis! 

Pela primeira vez em toda minha vida de "assistente de alguns concertos", senti, a dada altura, que tinha realmente à minha frente de um senhor que nada tem a ver com as imagens mediáticas e que tem tudo a ver com as letras que escreve... Eu explico-me melhor: sempre que falamos em Elvis Costello, pensamos (ou pelo menos a maioria de nós pensa) na música "She" e, depois, no seu último álbum, North. Pois bem, o "rapaz de quase 50 anos" (que completa no próximo dia 25 de Agosto) é tudo isso e muito mais. Quando à canção "She", imaginem, nem se lembrava da letra quando o público insistiu para que ele a cantasse no concerto que deu no Porto! Em Lisboa, precisou de ter a letra à frente, em papel e bem iluminada, para a conseguir cantar. Quanto ao último álbum, esse foi cantado com a humildade de quem canta para si mesmo e para quem ama.

Elvis Costello veio ao velho continente para fazer os seis únicos concertos que tem em agenda para este ano. Acompanhado apenas pelo pianista Steve Nieve, actuou três vezes em Portugal depois de dois concertos em Itália e um no Reino Unido. Vê-lo foi um privilégio raro e uma surpresa. Costello é enérgico, um poeta com sentido humor que soube colocar uma plateia inteira de pé durante as suas últimas 10 músicas... Sem demonstrar cansaço, e com uma entrega muito pouco comum, Elvis surpreendeu-nos com a facilidade com que mudou tantas vezes de género musical ao longo do concerto. Do soft jazz para o rock puro e duro, das baladas suaves para os blues intensos. Por momentos, senti que estávamos num bar, algures por essa Inglaterra que não conheço, num espaço privado e intimista, com alguém que tocava simplesmente por prazer. Sem qualquer obrigação de ali estar. Momentos perfeitos. A repetir!

2004/05/10

Livros: Contos de Eva Luna 

Amadeo Peralta fechou-a no velho sotão do barracão, durante toda a sua vida. Primeiro, um capricho, uma urgência rápida do corpo, depois um empecilho difícil de esconder da noiva, da esposa, e do povo. Hortência, simples, criança-criança, depois criança-mulher, criança-morta, acostomou-se à escuridão, devolveu a urgência enquanto ela existiu, e desapareceu nas sombras do sotão até Amadeo a esquecer, até se esquecer de si também. Quando finalmente a encontraram, já Amadeo tinha abandonado o mundo conhecido, a alma tinha-se despegado do corpo, a pouco e pouco tornando-o velho-criança, primeiro, e velho-nada, depois. Hortência acompanha-o e parece não o condenar pela vida sem amor. Ou então, a figura ausente é mais forte e preenche-nos mais docemente que a do dia-a-dia...

São vinte e três contos, de amor e desamor, principalmente, solidão, breves alegrias e desencontros, a felicidade é um animal estranho que quando nos salta de entre as linhas de Isabel Allende nos obriga a curvar para o ver melhor, antes que nos ataque. Ou então não é nada disto... Nos Contos de Eva Luna, a surpresa é a forma de pontuação que mais se usa. Ou talvez seja apenas a constatação que a vida é apenas um jogo, ou talvez...

2004/05/09

Segundos... 

Em nada me pesa ou em mim dura o escrúpulo da hora presente. Tenho fome da extensão do tempo, e quero ser eu sem condições.

Bernardo Soares

2004/05/08

Música: Love is Hell 

Love is hell, ou deve ser isso que se pensa quando se escreve um conjunto de canções despidas, principalmente de esperança, mais do que de instrumentos. E Ryan Adams diz-me, mostra-me, isso e outras coisas em 16 pedaços de solidão e beleza. Please do not let me go, por favor, por favor... e espelham-se pedaços de Rufus Wainwright e Jeff Buckley nas paredes pequenas e agrestes do meu quarto. Mais uma guitarra dedilhada, uma voz doce, I see monsters, olho para o tecto, onde estás, porque não aqui, still i see monsters. Há por aqui quem reconheça aquelas canções que nos podem, devem, fazer chorar?

2004/05/07

Momentos: Incongruentes 

POZZO: (mais calmo) Meus senhores, não sei o que é que me passou pela cabeça. Perdoem-me. Esqueçam tudo o que eu disse. (Cada vez mais senhor de si mesmo.) Já não me lembro bem do que disse, mas podem ter a certeza que nada do que disse é verdade. (Endireita-se, estica o peito.) Acham que tenho cara de homem a quem se pode fazer sofrer? Francamente! (Vasculha nos bolsos.) O que é que eu fiz ao meu cachimbo?

VLADIMIR: Que noite encantadora.

ESTRAGON: Inesquecível.

À espera de Godot, Samuel Beckett

2004/05/06

Música: Cash, Mr. Cash 

A importância de Johhny Cash para a música americana como a entendemos hoje é enorme. Poderiamos dizer que não existiria Nick Cave, ou Costello, ou mesmo Waits, para citar apenas três dos autores que souberam ir beber a Cash uma forma directa e simples, muito dura, por vezes, de cantar os homens e as mulheres, os amores e os ódios, as estradas, as perdas, os assassinatos, a vida e a morte...

Neste magnífico American Recordings de 1994, encontrei pela primeira vez Cash, e como amor não há como o primeiro, continua a ser o meu preferido da vastíssima discografia do cantor. E que temos neste albúm? Para além da voz inesquecível e da guitarra simples e brutalmente eficaz, temos 13 canções entre originais de Cash, versões de Waits, Kristofferson ou Wainwright. Um pequeno mundo amoroso e cruel, portanto...

Oh, bury me not...

2004/05/05

Livros: Carta de Lisboa 

Um carta encontrada em Lisboa. Palavras perdidas que desenham as formas de uma cidade mágica, aparentemente livre da maldição do tempo. Um carta simples que nos transporta de regresso a uma Lisboa que se redescobre.

«Lisboa.... Acreditar que tudo tem início aqui é, em si, uma ilusão. O mar fica já ali, naquele varandim, logo acima da colina. É como um desejo onírico. Algo que nos prende ao chão e, simultaneamente, desafia a gravidade, acenando-nos sem fazer o menos gesto: um gato que teria a memória de todos os gatos. Mas um daqueles que nos fita, de olhos perdidos no vazio, no olhar de quem entramos mercê apenas do seu campo magnético, e que nos segue para todas as direcções possíveis porque não sabe fazer de outro modo, e aliás pouco lhe importa se o faz ou não. A cidade é algo em equilíbrio à janela entre o fim de um continente e mil outros.»

A Carta de Lisboa é um livro invulgar, uma declaração de amor. Eric Sarner escreveu-a e Miguelanxo Prado ilustrou-a como só ele sabe fazer. Um galego apaixonado por Lisboa que mesmo conhecendo Lisboa descobriu outra Lisboa feita de escadas, pombos, cães, gatos... Uma Lisboa com roupa estendida nas janelas, ruas que servem de ponto de encontro, eléctricos que surgem ao virar da esquina ou que flutuam para lá da realidade. Uma cidade de gaivotas que se lembra de Pessoa, que espera por D. Sebastião ou por um cacilheiro. Uma cidade de fado, naus e cores fortes. Uma Lisboa feita de luz que dá prazer encontrar.

2004/05/04

Segundos... 

De todas a mais volátil
é a categoria tempo

Fernando Assis Pacheco

2004/05/03

Entre-aspas: Chocolate, meu amor... 

Finalmente li o que há já algum tempo sonhava ver escrito... Imaginem só que está já provado que a ingestão de chocolate preto não só faz bem, como ainda pode ter propriedades adelgaçantes!!! Ora leiam:

«O prazer sem culpa é algo cada vez mais raro. A excepção parece ser, afinal, o chocolate. (...) A expressão, em língua azteca para designar o cacau, e que deu origem à palavra chocolate, significava dádiva dos deuses. (...) Os aztecas chegaram a utilizar o cacau como moeda. Com cem grãos, por exemplo, comprava-se um bom escravo. (...)

A sensação de felicidade produzida pelo consumo de chocolate, e que, segundo especialistas, é muito semelhante (em termos químicos) à de um organismo apaixonado, explicaria o motivo por que tantas mulheres se tornam viciadas nele. Nada contra. (Ah! Novos estudos sugerem que o cacau tem propriedades adelgaçantes!)

A maioria dos homens não vale cem grãos de cacau. Os homens não têm flavanóides nem polifenóis, não têm propriedades adelgaçantes, e os que têm já estão casados. Eu prefiro os chocolates.»

Faíza Hayat, Crónica, Revista Xis, Público, 1 de Maio de 2004

Há, de facto, mulheres com opiniões curiosas sobre os homens... ;-)

2004/05/02

Música: No quarto do lado 

Estou há horas a ouvir o último disco de Diana Krall. Mais do que isso... Há duas semanas que este CD não quer sair do leitor. Sabe-me bem a tranquilidade que transmite e a paz que evoca.

The Girl in the Other Room é um disco de jazz invulgar. Em vez de voltar a fazer outro disco de standards, Diana Krall optou desta vez por escrever canções originais com Elvis Costello, para além de reinventar canções de Joni Mitchell, Mose Allison, Chris Smither, Tom Waits e mesmo de Elvis Costello. São 12 as canções que compõem o álbum e, apesar das suas diferentes origens, formam um todo tão coerente que parecem ter sido todas compostas de propósito para integrarem este CD. E se gostei de The Look of Love, gosto ainda mais deste novo disco, que termina pedindo para recomeçar. Não deve ser por acaso que a última faixa se chama Departure Bay...

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