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2004/11/25

Música: Ao som dos teus afectos 

Depois de uma série de discos que classifico de forma muito positiva, Bernardo Sasseti trabalhou em algo chamado Indigo. Não ouvia nada tão bom há muito tempo, e não ouço tão poucas coisas quanto isso...

Atrevo-me a dizer que me aninhei na manta do sofá (a propósito, tenho de comprar outra) e me deixei levar pelos sons deste filho feito em Belgais. Rasgos de génio, sons de aconchego, ternura, conforto puro. Chegamos a pensar ao ritmo das mãos do Bernardo.

Indigo é tão íntimo que por vezes damos por nós a pensar sem vergonha, sem limites... É uma espécie de "passe social" para o sonho. A tarifa não aumenta, mas o que cresce é a distância que podemos percorrer. Mais uma vantagem, não tem última paragem.

Se os afectos de nos ligam a quem gostamos emitissem sons, não deveriam ser muito diferentes destes...

2004/11/23

Livros: A verdadeira história 

Depois de um ano aberto a controversas discussões sobre um livro aparentemente inocente, surge no nosso país uma obra que se afirma como o contraponto aos excessos sobre a vida da figura histórica de Jesus de Nazaré.

E. P. Sanders é hoje um dos maiores vultos no estudo da vida de Jesus. E o livro tem beneficiado enormemente da polémica gerada pelo Código Da Vinci. O que é uma óptima estratégia de venda. Mas que no fim não se justifica. O livro em questão é interessante, mas infelizmente algo maçudo para o leitor ocasional. Com o objectivo de enquadrar o leitor no mapa geográfico, político e religioso do inicio do calendário ocidental, torna a leitura algo penosa. É aqui que que a estratégia de venda falha.

Onde o Código era um livro que se devorava e cada um acreditava ou investigava o que lhe apetecia, mas lia com satisfação, A Verdadeira História de Jesus é um manual de história, onde só entra quem tiver paciência e vontade de descobrir um pouco mais sobre os factos inegáveis do homem de nome Jesus. Logo, dois estilos de escrita e de público-alvo completamente diferentes. O que não faz da obra de E. P. Sanders ma má escolha para a nossa biblioteca. Antes pelo contrário, se é de factos que andamos à procura.

2004/11/21

Segundos... 

Prefiro mulheres com passado. Têm uma conversa muitíssimo mais interessante.


Oscar Wilde

2004/11/20

Entre-aspas: Caminhos... 

Esta manhã parei. Parei enquanto lias alto uma crónica. As palavras transformaram-se em sensações, o coração bateu mais forte enquanto ouvia os parágrafos que se sucediam, marcados pela tua voz clara. Imaginei-me a mim próprio dentro de trinta ou quarenta anos, senti-me hoje no lugar do filho apressado, vi-me partir ou ficar... Mas senti sobretudo que vale a pena sentir. Sentir para saborear o privilégio de cada instante único que nos é dado viver. E está um sol fantático lá fora...

O texto começa assim:

«Envelheci, sabes? Já não tenho a paciência que sempre gabavas. Estou mesmo velha. Tenho muitas vezes frio e uma vontade enorme de voltar para casa. Os netos cresceram e já não me visitam com frequência, os filhos aparecem, sempre ocupados, como que a cumprir uma obrigação.

Se fosses vivo, farias hojes setenta e cinco anos. (...) Um dia acordei de manhã e estavas morto a meu lado. Sereno, como sempre foste. A príncipio quis convencer-me de que estavas doente, quase jurava que ainda ouvia a tua respiração, mas toquei-te e não tive dúvidas, tinhas partido. Sem aviso, ao contrário do que sempre fazias: até logo à meia-noite. E eu ficava para ali à tua espera, às vezes em casa de um dos filhos, quase sempre na nossa sala, a folhear um jornal. E espreitava-te sonoloenta, quando chegavas, fingia que dormia quando te deitavas e encostavas o teu corpo ao meu. (...)»

Daniel Sampaio, Revista XIS, Jornal Público, 20 de Novembro de 2004

2004/11/19

Música: Rufus... de mim mesmo 

Confesso que entrei na Aula Magna um pouco receosa... Nada conhecia sobre o Rufus, nem sequer tinha feito por isso. A sala estava cheia, preenchida por muitos fãs que nem o próprio sabia ter em Portugal. A voz começa a entrar em mim, primeiro num registo agressivo e estridente, num segundo momento confuso e agradável. O som do piano era de facto envolvente e magnetizante, mas a voz... Provocou em mim várias estados de humor. Instabilidade mesmo. (sono, riso, cansaço, energia...) Rufus fala com o seu público, várias vezes. Atrai-nos de facto. Tímido e nem sempre com lugar para colocar as mãos enquanto não está a tocar. A voz continua a ser o meu foco de atenção e começo a sentir algum prazer naquele registo "borderline". Acabo por me reencontrar algures no meio desse som e finalmente passo para o lado de admiradora baralhada quanto aos estímulos que recebo. E agora quero conhecê-lo mas, desta vez, com banda e já com algumas letras na "ponta da língua". A repetir! Catarina

Já com o conhecimento de parte da obra de Rufus, esperava o melhor. Melhor, esperava que tudo correse pelo melhor. Sabia que a passagem das músicas trabalhadas dos discos para o registo despido de uma voz, um piano ou uma guitarra, era um risco. Muita da magia das músicas de Rufus reside na produção que têm em cima, e na Aula Magna só se poderia contar com a força das canções. Muitas vezes isto é a morte do artista. Neste caso, apesar da dificuldade de habituação, a aposta foi largamente ganha pela figura franzina, de milhões de tiques, que se entregou a uma casa cheia e cheia de vontade de a ouvir. Agradeceu muito pelo afecto. Não era preciso. Nós agradecemos pela entrega. António

Descobri o Rufus Wainwright por causa deste concerto e do post do António. Aliás, foi ele, o António, quem me recomendou o concerto e os discos. Entrei pela porta do Want One e espreitei o Poses. Gostei, fiquei curioso... Habituei-me nos discos à voz arrastada e preguiçosa do Rufus, que tanto embala como surpreende pelo virtuosismo de que é capaz. Mesmo assim, custei a entrar no concerto. Fiz comparações com o John Cale, quando este se faz ouvir exactamente no mesmo contexto, só com um piano ou uma guitarra... Acho que o espectáculo já ia a meio quando me deixei levar pela música e pela entrega dele ao concerto. Mas foi na última canção do último encore que ele deu tudo... E é ele que toca ainda, durante esta tarde fria... Rui

2004/11/16

Segundos sobre um homem de arte... 

Para um homem que trata artisticamente a vida, o cérebro é o coração.


Oscar Wilde

2004/11/12

Música: Bom Dia, Pluto... 

Desde que uma rodela de plástico aterrou em milhares de leitores de CD há uns anos com o nome de O Monstro precisa de Amigos, que no nosso país se verificou algo estranho. Dificilmente um grupo português consegiu reunir tão boas críticas e visoes de um futuro grandioso como os Ornatos Violeta. O disco chegou a ser comparado à (chamada por muitos) obra-prima Ok-Computer dos Radiohead. Percebo porquê: o Monstro era um disco extremamente bem feito e equilibrado, com músicas belíssimas, para o que contribuia de forma inegável a produção de Mário Barreiros, mas especialmente a veia poética de Manuel Cruz e a forma como cantava as suas palavras. Era e é um disco, para mim, arrepiante. Mas os Ornatos, no pico da sua carreira e da sua fama apresentam a carta de demissão à música portuguesa. Adeus, Ornatos, com promessas de projectos vários...
Desconfio que nunca no nosso país se esperou e especolou tanto à volta de um disco de uma banda nova. O nome Pluto arrepiou caminho em rádios e jornais como a promessa da volta da música dos Ornatos, apesar da presença apenas de Cruz e Peixe. E aparece o primeiro single e... Só mais um começo apresenta Bom Dia, e deixe transparecer um pouco do som dos Pluto. Foram-se as teclas de Donas e a guitarra é a rainha. É por isso um albúm muito diferente daquilo que alguns esperavam depois de Monstro, muito mais próximo da agressividade e experimentação de Cão!, o primeiro registo dos Ornatos. E não é um disco fácil de ouvir. Requer tempo, as canções não são imediatamente assimiladas, mas... não me parece que os velhos fãs se sintam defraldados. Todo este sangue na guelra é contagiante, e Bom Dia é realmente um bom começo para os Pluto. Muito bom.

2004/11/11

Música: A 7ª Legião regressa por 1 noite 

No primeiro comentário ao post anterior, um dos nossos leitores/visitantes pediu-nos que divulgássemos um concerto de solidariedade que se realiza no dia 26 deste mês, no Fórum Lisboa (antigo Cinema Roma). Tem graça e foi a primeira vez que aconteceu.

Achámos todos que a resposta era um "sim" imediato. Primeiro, pelo motivo do concerto, que é organizado pelo Grupo de Acção Comunitária, uma instituição de solidariedade social que procura contribuir para que pessoas com doenças psiquiátricas possam ter cuidados de saúde sem terem que estar internadas em instituições. Depois, pelo concerto em si.

É a primeira vez em muito tempo que a Sétima Legião se volta a juntar e não se prevê que essa reunião se repita no futuro próximo. Vai ser uma oportunidade para vermos o Rodrigo Leão no seu ambiente original, com os companheiros do seu percurso antes da carreira a solo e antes dos Madredeus. Depois, ando curioso para ver os Gaiteiros de Lisboa há muito tempo...

Os bilhetes podem ser comprados no próprio Fórum Lisboa, na Ticket Line ou na FNAC, que é onde eu vou comprar dois bilhetes daqui a pouco...

2004/11/09

Música: Want One 

Quando em 2001 lançou o seu segundo albúm poucos lhe deram crédito. O conjunto de músicas bonitas e meio-assombradas com uma voz a que é preciso um periodo de habituação não facilitou o trabalho de muitos ouvintes. No entanto, muitos andaram por aí a cantarolar "cigarretes and chocolate milk, these are just a couple of my cravings". Mas o resto passou ao lado. Poses foi um disco que ouvi muito mas que falhava em captar a minha atenção por completo. E em 2003 não liguei a mínima ao seguinte conjunto de canções, agrupado sob o nome de Want.

Want One, porque haveria uma parte Two. Parece que o trabalho de composição foi de tal forma proveitoso que o material foi dividido em 2 tomos. Want Two sai este mês na América e por cá só no inicio do ano de 2005. Uns meses atrás foi anunciado o concerto na Aula Magna, e decidi então ir ouvir Want One. E que surpresa... Este sim, capta os meus sentidos todos. A vertente operática e clássica da maior parte dos temas (Bolero de Ravel encaixado numa canção pop sem parecer piroso??), o trabalho de super-produção (cordas, metais, vozes e mais vozes, num turbilhão surpreendente de beleza e bom-gosto),a facilidade de composição de Rufus e a voz que me parece agora melhor enquadrada contribuem para um album que se pode definir como belo. Ponto. A espreitar dia 13 deste mês na Aula Magna, onde se ouvirá Rufus acompanhado apenas por piano ou guitarra, sem banda de suporte, e logo, sem a luxuria de Want, mas com mais atenção para se descobrir num ambiente intimista o tipo de quem se disse que podia cantar uma lista telefónica e continuar a ser sexy. A espreitar, sim...

2004/11/07

Momentos: Deriva 

Vi as águas os cabos vi as ilhas
E o longo baloiçar dos coqueirais
Vi lagunas azuis como safiras
Rápidas aves furtivos animais
Vi prodígios espantos maravilhas
Vi homens nus bailando nos areais
E ouvi o fundo som das suas falas
Que nenhum de nós entendeu mais
Vi ferros e vi setas e vi lanças
Oiro também à flor das ondas finas
E o diverso fulgor de outros metais
Vi pérolas e conchas e corais
Desertos fontes trémulas campinas
Vi o frescor das coisas naturais
Só do Preste João não vi sinais

As ordens que levava não cumpri
E assim contando tudo quanto vi
Não sei se tudo errei ou descobri

Sophia de Mello Breyner Andresen

2004/11/05

Música: The Arcade Fire 

E dizem que nada na música é novo ou surpreende já... Até eu digo isso, por vezes, cansado da mesma formula repetida em centenas de novos albúms ou novos artistas. Mas eis que me aterra um disco estranho no leitor. Quero dizer, estranho... digamos inqualificável, tudo menos radio-friendly, que se pega a nós como um insecto ou aracnídeo e que não sabemos se devemos esmagá-lo imediatamente ou observar melhor as cores e as antenas que mostra.
The Arcade Fire são uma banda fora deste mundo (mesmo que digam que nasceram no Quebec...) e Funeral (finalmente alguém tem coragem de colocar este nome a um CD) é um objecto que se ouve.Só. Ou não... Que se estranha. Entranha. Saltando entre Pixies com 16 anos a aprender a tocar e Beck à força de Xanax, ou entre uma alt-country do fim do sec XIX e jogos de sons para metalúrgicos, ou uns Pulp ainda menos sérios e... Quem me conhece sabe que reajo a discos que me surpreendem de uma forma: rindo, incontrolávelmente. O que eu me tenho rido com este...

Ouve-se uma vez, se calhar nem todo, mas há certamente uma curiosidade mórbida que nos impele a deixar tocar.Onde é que isto vai acabar? Dedos longe dos botões, excepção feita ao controlo do volume. E não é que até gostamos disto? Muito. Fascinante... perfeitamente fascinante...

2004/11/02

Teatro: Talvez Camões 

Existem impulsos que por vezes não se explicam. O Chapitô é por si só um lugar mágico. Um vinho quente com canela e hortelã neste primeiros dias de frio... delicioso e reparador. Em ritmo de zapping pela TV, vi um excerto da peça que vos trago. "Non-sense". Sorri e decidi naquele instante que era a peça certa para escolher para aquela data. Éramos 12 pessoas, ninguém tinha lido nada sobre a peça, sabia (pela obviedade do título) que Camões poderia ser a caricatura escolhida. Não li nada mais. Quando se entra na sala do Chapitô, os actores Jorge Cruz, José Carlos Garcia e Rui Rebelo já se encontram no espaço da cena, com uma imagem desordenada e aparentemente indiferentes aos vários estímulos da plateia que vai chegando... A sala nada reflecte o espaço que nós à partida espectamos para um Teatro. É intimista, quente e acolhedoramente vazia. Não conhecia nenhum dos actores (shame on me) mas são todos muito especiais. Muito mesmo. A peça dura 1h45m e passa com uma leveza e bem estar únicos. Rir, sorrir mas o mais importante de tudo partilhar a criatividade de um encenador John Mowat que de uma forma simples nos leva a viajar por sons, expressões, emoções, todas estas de uma energia francamente positiva! E o tão famoso "olho" que Camões perdeu... só quando por lá passarem é que realmente vão conhecer o verdadeiro motivo que os Deuses guardavam no seu segredo!

A peça vai regressar a partir de 15 de Novembro até ao Natal. Eu por mim, vou repetir! Sem hesitar! Talvez... leve comigo mais 12!

2004/11/01

Filmes: Vai uma dose de McGordura? 

Os documentários com uma causa parecem estar a ganhar expressão nos nossos cinemas. É verdade que foi Michael Moore quem conquistou esse espaço, mas a escola está a crescer e Morgan Spurlock parece ser um bom discípulo. Super Size Me é o primeiro filme de longa duração de Morgan. Talvez seja por isso que ele escolheu o caminho de ser produtor, realizador e, acima de tudo, a cobaia do filme. Sim, porque é disso que se trata.

Inspirado pelo processo que duas adolescentes moveram contra a McDonalds, Spurlock resolveu fazer uma dieta radical: trinta dias a comer exclusivamente o que a McDonalds tinha para lhe oferecer e a aceitar sempre que lhe propunham o "super size". Os resultados que isso teve para o seu bem-estar físico e psicológico ultrapassaram o que ele próprio e os médicos que o acompanharam esperavam. Há cenas do filmes que são perfeitamente arrepiantes... Vómitos, variações de humor, dependência...

A verdade é que o fast-food tem ganho um espaço cada vez maior na alimentação do mundo ocidental. Também é verdade que a obesidade se está a tornar numa verdadeira epidemia nos Estados Unidos e que o fast-food muito tem contribuído para isso. Mas será a responsabilidade da McDonalds ou de quem escolhe ir lá frequentemente? Será a obesidade um problema em si mesmo ou um sintoma da forma como procuramos desesperadamente encontrar no consumo de qualquer coisa a satisfação que nos falta na nossa própria vida?

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