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2005/02/26

Filmes: Ray 

É difícil falar de Ray. Não existe, provavelmente, muito para dizer sobre um trabalho muito bem feito, com interpretações excelentes e uma direcção segura e bonita de Taylor Hackford..

Jamie Foxx parece ter saido do nada para o papel que lhe pode dar o Oscar na noite de amanhã (sim, em Colateral já era impossível não reparar nele, quando faz mais pelo filme que o próprio Tom Cruise), e é aqui que o filme ganha ponto atrás de ponto, num desempenho arrepiante.


Mas sejamos honestos, a figura é Ray Charles, músico impossível de contornar no meio musical e especialmente na evolução da música americana, na constante quebra de fronteiras e mistura de estilos. E que bom é ouvir as canções que de uma forma ou doutra todos reconhecemos...

(Nota negativa apenas para o final a puxar para o lencinho.)

2005/02/22

Livros: 1602 

Podemos concordar que o universo Marvel está estagnado, sendo aqui e ali rasgado por uma luz de génio, mas quase sempre em volta das mesmas tramas e das mesma personagens, ora desvendando uma origem, ora apresentando uma reviravolta noutra origem, que afinal era falsa? Se concordar com esta apreciação, não precisa ler mais. Estamos consigo e obrigado.

Se não concorda, vamos falar de 1602.

Neil Gaiman, autor conhecido por obras como Sandman, ou American Gods, une-se à arte fabulosa de Andy Kubert para rever o Universo Marvel. E daí? Mais uma vez? Bem, mais uma vez mas de forma diferente. E se se pegasse em personagens por demais conhecidas, mas se colocassem em tempo e espaço desconhecido? E se esse tempo fosse o ano de Cristo de 1602 e o espaço fosse uma Europa repleta de intrigas e reinos ameaçados, uma Inglaterra em fim de reinado da mítica rainha virgem, Elizabeth, uma Inquisição em esforço, um novo continente em vias de ser invadido por exploradores e colonos? E se neste cenário, Peter Parquahg, um rapazinho orfão que deixou os tios numa vila para ser ajudante do chefe da espionagem Inglesa, um Sir Nicholas Fury, admirasse um trovador cego de nome Murdock, que por acaso é espião, e se cantassem nas tavernas odes de dor e apreço por um conjunto de quatro heróis mortos, constituidos por parte da família Reed e... , e se..., e se...

O que Neil Gaiman e Andy Kubert conseguem com 1602 é rever as personagens e as referências clássicas da Marvel de uma forma muito bela e estimulante.

(Apesar de poder ser lido mesmo por quem não tem qualquer referência deste universo, 1602 é muito mais apreciado por quem reconhece nomes e situações, pelas semelhanças e, principalmente, pelas diferenças da versão apresentada e da conhecida.)

Não é isto que vai mudar tudo, mas já é um começo... Excelente começo.

2005/02/21

Teatro: Foi você quem pediu um idiota? 

«Estou? Sou eu, o Pedro! Encontrei um idiota fora de série para o nosso jantar desta noite! Sim, sim... Acho que vai ser o melhor do ano! Imagina tu que o tipo se dedica a fazer miniaturas de monumentos com fósforos! Sim, fósforos!!! O gajo chama-se Francisco e trabalha nas finanças, num empregozito qualquer. E passa as noites a colar fósforos! Espera... Já te ligo, acho que é ele quem está a tocar à porta. Não, nem penses nisso! A dor nas costas continua, mas não perdia este jantar por nada deste mundo!»

Mas o Pedro perdeu mesmo o seu Jantar de Idiotas. Perdeu o jantar, mas ganhou uma noite como nunca imaginou que ia viver. Francisco revelou-se um idiota de primeira! De primeira? Não... Mais do que isso. Francisco revelou o idiota que há no Pedro e em cada um de nós. O idiota que se presta ao ridículo dos outros na falta de consciência de si próprio. Mas não há idiotice que sempre dure...

Jantar de Idiotas, no Teatro Villaret. Uma encenação de António Feio com Miguel Guilherme, António Feio, João Lagarto, Rita Lello e Helena Isabel. É uma grande idiotice faltar a este jantar!

2005/02/19

Música: Antony e nós 

Três certezas: mais uma voz dificil de ouvir, difícil de colocar entre a pele e os ouvidos; a canção soul deste ano já está escolhida e chama-se Fistfull of Love; uma das melhores canções dos últimos 10 anos chama-se Hope There's Someone.

Outras certezas: um piano a lembrar Cale ou Amos e uma voz hesitante abrem um brilhantísimo e doloroso caminho de 10 canções feitas de luz e sombra, violinos e violoncelos, com a ajuda de amigos como Devendra ou Wainright. O arrepio do quase (????) gospel da faixa inicial, prolonga-se, estica-se, ajeita-se, machuca aqui e ali, liberta depois, e 35 minutos, neste caso, é muito pouco, muito pouco...

Procurem por aí Antony and the Johnsons, I Am a Bird Now

P.S. ( a beatiful dark bird in flames... )

2005/02/17

Sensações... de amadurecer 

... de impotência que revolvem o meu interior como se de uma tempestade se tratasse.

Há um caminho que nos leva a um país desfeito em promessas vãs, que afinal no seu falhanço, a consequnte frustação será igualmente partilhada por quem em tempos prometeu...

Chegamos lá. Estamos sozinhos, somos um peso na vida dos que amamos. Não sabemos pedir ajuda porque incomoda... e aprendemos a viver numa solidão que só uma janela e uma luz solar disfarçam de vez em quando.

A pressa das nossas vidas não nos ensina a partilhar, com amor, paciência. E a "minha" impotência é essa mesma. Equilibrar o egoísmo e o impôr limites de protecção da minha própria vivência. Como se só soubéssemos cuidar dos mais novos... como se nós adultos não precisássemos de cuidados... como se um dia tudo o que representa a nossa autonomia não se reduzisse à aceitação do corpo que vai quebrando...

E junto à minha tristeza de não saber amar os mais velhos, a culpa, que acompanha a esperança de um dia voltarmos a respeitar quem envelhece com condições e numa sociedade que não os ostracize mas sim os encha de mimo e muito amor.

Sensações de que esses poderemos ser nós...

2005/02/13

Filmes: Closer (ou perto demais...) 

O título é de facto curioso. Closer ou perto demais... O que quererá dizer perto demais?! Talvez signifique o tão famoso "fio da navalha" onde não há regras e a ambivalência de emoções se reduz a um movimento pendular... Talvez.

O jogo perverso. Como se o ser humano conseguisse ultrapassar a barreira do som, mas com gritos que ecoam dentro do próprio. Em sufoco.

E depois... vem o Amor. Essa emoção que tantas palavras tem merecido e que se vai transformando em novas formas. Porque sim. Porque ninguém quer assumir que amar revela um padrão. Quem nunca se sentiu fora do padrão?! E quem disse que não ser padrão está errado? E se existem limites, porque não quebrá-los? E estar perto significa perto de nós ou de outros? Sorrio enquanto assumo esta retórica...

As personagens são fascinantes. A linguagem é nua e crua. O doce numa boca que provoca sabor a fel.

E a história... essa... é a de muitos de nós. Ou de outros. Estaremos perto demais para nos perdermos de nós mesmos?

2005/02/11

Música: O que falta? 

(Évora): Num Teatro esgotado para dois dias, 10 e 11, plateia entusiasta, banda esforçada e com um bom conjunto de canções, a minha pergunta ao fim de quase 2 horas de concerto é: O que falta aos The Gift?

(Confesso não ser fã nem ter ainda ouvido o AM/FM, confesso também ter gostado do Film, com a sua onda mais experimentalista. Mas qual a razão para uma voz magnífica de possibilidades e sensualidade continuar a parecer não encaixar na manta de retalhos maquinais criados pelo colectivo? Salvo raras excepções, em que as canções crescem de forma consistente, ou aquelas em que o minimalismo instrumental deixa uma voz como a de Sónia (maior que o mundo) Tavares respirar e sussurrar, essa mesma voz anda perdida numa cacofonia sem direcção à vista. É isso que me irrita numa banda que tem feito um trabalho exemplar na nossa musiquita portuguesa. É só isso...)

Num Teatro esgotado para dois dias, 10 e 11, plateia entusiasta, banda esforçada e com um bom conjunto de canções, a minha pergunta ao fim de quase 2 horas de concerto é: O que falta aos The Gift para se tornarem a melhor banda portuguesa?

2005/02/09

Segundos... 

Busco um sinal teu em todas as outras, no brusco ondulante rio das mulheres, tranças, olhos meio submersos, pés claros que resvalam navegando na espuma.

Pablo Neruda

2005/02/05

Dança: O sapateado reinventado 

Os gajos chamam-se Tap Dogs e fui vê-los ontem à noite ao CCB. Não pensei que o sapateado pudesse ser reinventado desta forma, surpreendendo e prendendo o público ao longo de quase hora e meia de espectáculo, usando a construção e a transformação do cenário como parte do espectáculo e usando acessórios inesperados, como baterias electrónicas, rebarbadoras ou mesmo água...

O público ficou preso ao que se passava do palco, mesmo que alguns tenham optado por fugir das cadeiras nos momentos mais "chuvosos"... O que fica do espectáculo é uma sensação de ritmo, uma dança industrial que parece reinventar danças tribais de poder e agressão controlada. Fica também a energia e a entrega que os seis dançarinos nos deixaram, acompanhados por um sétimo elemento, o multi-instrumentista que os acompanhou. Se ainda conseguir ir ver, não perca!

2005/02/02

Fotografia: Castello-Lopes no Chiado 

Hora de almoço. Apanho um táxi que me deixa entre o Bairro Alto e o Chiado. Não resisto e almoço uns filetes de peixe-galo. Magníficos... Levava a máquina fotográfica comigo, coloco-lhe a objectiva de 35mm e aproveito uns minutos para captar instantes de uma Lisboa que parece de outro tempo. Candeeiros, paredes, mas sobretudo pessoas, vida... O rolo desaparece, foto após foto. Rua do Loreto, Largo de Camões, Largo do Chiado, Rua António Maria Cardoso, Travessa dos Teatros, Largo do Chiado outra vez. É nessa altura que reparo na exposição e entro. Fascinante...

Edifício da Fidelidade, no Largo do Chiado. Exposição Gérard Castello-Lopes, homenagem a Henri Cartier-Bresson. São perto de 40 fotos extraordinárias, todas a preto-e-branco e cada uma com a sua história única. São perto de 40 testemunhos de meio século, de 1957 a 2004. São um olhar único sobre momentos do quotidiano em Lisboa, Paris, Roma ou Bruxelas. São instantes decisivos, momentos de génio em que Castello-Lopes não fica a dever nada a Cartier-Bresson. Nós é que ficamos a dever. Aos dois...

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