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2004/01/31

Música: Jazz do Novo? 

Dillip Harris e Robert Gallagher. Nome de código: 2bo4 ou Two Banks of Four. Vários trabalhos, nomes diferentes, estilos diferentes. Como 2bo4 editam em 2003 Three Street Worlds pela Red Egyptian Jazz. Novo Jazz? Eu diria jazz do antigo. Leia-se: do bom. Semelhanças com projectos como Koop, diria eu. Ou talvez não. É apenas jazz. Ah, mas tem electrónica!, dirão outros. E daí? Jazz do antigo. Leia-se: do bom. Apesar de nenhum deles se afirmar como músico de Jazz. Dizem que são apenas rapazes que passam música em clubes. Ok, cada um com a sua. É Jazz do bom. Leia-se: do novo.

2004/01/30

Momentos: A naturalidade... 

«Perdão. Há que pensar um pouco antes de lavrarmos uma sentença. Vejamos, meu amigos: o que deve ser julgado criminoso? Sobretudo aquilo que não é natural. Esta definição é má, sei perfeitamente. Definir é limitar, e esta definição limita muito pouco, visto que um grande número de coisas nada naturais, de forma alguma são criminosas- pelo menos a "sociedade" não as considera assim. Mas entendamo-nos: Digo: O criminoso é acima de tudo o que não é natural, o que não se justifica. Eis pelo que os tribunais absolvem muitos assassinos: um marido descobriu a sua mulher com um amante; matou-os. O seu crime foi natural. O júri absolve-o.»

In "O Incesto", Mário de Sá Carneiro

2004/01/29

Música: A senhora com voz de sereia 

A senhora chama-se Diana Krall e tem uma daquelas vozes que chama, cativa e exige ser ouvida. Interpreta um jazz aparentemente suave, sedutor, e que já me conduziu ao longo de várias tardes de Outono, enquanto chovia lá fora e eu deixava a sua voz soar...

The Look of Love foi o disco dela que mais me acompanhou. E é um disco fascinante. Editado em 2001, marcou o topo da carreira de Diana Krall, valendo-lhe os prémios Juno de artista do ano, álbum do ano e melhor cantora de jazz. Com músicas como "Cry me a river", não é difícil perceber o porquê de tantos prémios... E apetece-me ficar grato pelas circunstâncias que a levaram a aprender a tocar piano desde os 4 anos de idade e a mergulhar desde muito cedo na imensa colecção de discos de jazz do pai. E, apesar da relutância dos mais puristas, que bom que é que esta senhora chegue a um público cada vez maior.

2004/01/28

Música: Negro 2 - Hips & Makers 

Lembro-me que a primeira vez que ouvi este disco foi numa cassete que um amigo me gravou, com o lado B ocupado por Lisa Germano e o albúm também de 1994 "Happiness". Lembro-me de ter ouvido a voz de Kristin Hersh pela primeira vez (na altura não conhecia ainda Throwing Muses) e ter ficado viciado. E com isto quero dizer que não mais a deixei de ouvir. Adquiri os trabalhos seguintes, apesar de não ter voltado a sentir o mesmo. É que este disco é fascinante, e não há amor como o primeiro.

Kristin, acompanhada de guitarra e pouco mais, folk descarnada e palavras tão enlouquecidas como inocentes. Consta que este album foi feito para o marido, e que as canções lhe foram sussurradas a meio da noite pelas vozes que Kristin diz ouvir. Verdade ou alucinação o certo é que as músicas se colam a nós pela honestidade, pela desarmante honestidade. Daquelas que raras vezes se escutam. Ouça-se "A loon" ou o registo sufocante de procura de lucidez de "Letter".

Entre-aspas: Sons graves de contrabaixo 

É impressionante como um livro tão pequeno consegue dizer tanto...

«É por isso que eu digo que a orquestra é uma imagem da sociedade humana. Pois, tanto aqui na orquestra como na sociedade, aqueles que, além do mais, já executam tarefas degradantes são ainda por cima, por esse facto, desprezados pelos outros.»

In "O Contrabaixo", Patrick Süskind

2004/01/27

Livros: Jota Cristo 

Procurei este livro em todas as livrarias durante o Natal... foi-me apresentado há pouco tempo, finalmente agora recebi-o e delicei-me a descobrir a sua mensagem. A criatividade deste autor é de tal forma surpreendente que me levou a querer conhecer as suas restantes obras... É muito simples. Tudo o que nos ensinaram sobre a história da vida de Jesus Cristo, fica neste mini espaço desenhado, como o espelho da inversão divertida do que jamais seria possível inverter... se gostarem da sensação de perverter a interpretação óbvia e inquestionável da vida, leiam este livrinho delicioso!

Livros: Afirma Pereira! 

«Afirma Pereira tê-lo conhecido num dia de Verão.» É assim que começa Afirma Pereira, um romance magnífico escrito pelo mais português dos escritores italianos, Antonio Tabucchi. Um romance escrito num estilo peculiar, estranho a princípio mas que se entranha no ritmo de uma narrativa profundamente embrenhada nas teias do salazarismo, tal como ele se assumia na sua força máxima no fim dos anos 30.

Li este livro uns anos depois de ter visto o filme de Roberto Faenza, realizado em 1995. Não calhou ser ao contrário e ainda bem, porque assim Pereira terá sempre no meu imaginário a cara de Marcelo Mastroianni. E se o filme me deixou uma marca forte, mais o livro a aprofundou. A beleza trágica do despertar de uma consciência adormecida e o ritmo narrativo enganadoramente plácido, entranham no leitor o calor abafado e sufocante do Verão de 1938. Foi nesse Verão que Pereira conheceu Monteiro Rossi, um encontro aparentemente sem importância e que, sobretudo, não fazia adivinhar nada do que se seguiria. Descubra o quê.

2004/01/25

Fotografia: Doisneau 

O nosso universo diário está cheio de estímulos. O que aprecio acima de tudo, (sim, talvez acima do som) são as imagens. E há pessoas que as entendem como poucos. Talvez tenham o sentido da visão apurado ou processam estes estímulos de forma completamente diferente. São os fotógrafos. Aqueles que nos oferecem um pouco de si e do mundo que nos rodeia em cada imagem. Doisneau foi para muitos um dos melhores. Francês, retratou a sua sociedade, a sua Paris de bares e becos, a sombra da Segunda Grande Guerra nos olhares dos transeuntes.

A sua fotografia mais conhecida continua a ser "o beijo", e ainda hoje continua a existir discussão acerca da forma como foi feita: encenação ou um daqueles momentos em que se dispara a máquina e se espera pelo melhor?

»»"Robert Doisneau (1912 - 1994)" - Taschen

2004/01/24

Entre-aspas: Sobre Deus 

«(...) a igreja assustava-me (...) muitas senhoras levavam almofadas para os joelhos e os homens, ao endireitarem-se, sacudiam o pó das calças, o que me levava a pensar que Deus não era assim muito asseado ou então contratara uma mulher a dias incompetente.»

»»António Lobo Antunes in Segundo Livro de Crónicas

2004/01/23

Fotografia: A ternura das plantas 

Blossfeldt nasceu em 1863. Como professor de desenho na Escola Superior de Artes Plásticas de Berlim, usa uma simples câmara fotográfica feita por si para recolher imagens de plantas para as suas aulas.

Não se considerou nunca um verdadeiro fotógrafo. Apenas alguém que fotografou milhares de sementes, rebentos, caules, folhas e flores. Então, qual a verdadeira beleza do seu trabalho? É que ao olharmos as suas fotos, nos esquecemos rapidamente do objectivo inicial das mesmas para admirarmos apenas o intricado das formas, a leveza dos contornos, despertando-nos para a beleza natural das coisas. Mesmo daquelas que não ousamos perder tempo a olhar na rapidez do dia-a-dia.

»»"Karl Blossfeldt" - Taschen

2004/01/21

Lugares: Boavista, Cabo Verde 

Imaginem uma terra sem "caixas multibanco", sem o permanente toque dos telemóveis, sem centros comerciais, sem dependência de televisão... e o único som permanente é o rebentar das ondas do mar...

Imaginem um lugar onde os sorrisos são sempre abertos, cativantes ainda tímidos para o olhar de quem acaba de chegar. Imaginem a musica local em noites quentes (quentes para nós, porque quem cá vive acha-as noites frias de Inverno). Imaginem uma costa de areia fina, quase branca, que se estendem ao longo de quilómetros. Imaginem uma pequena ilha com um deserto tórrido no centro. Imaginem pessoas amáveis que sorriem enquanto estendem a mão para cumprimentar e dizem "bom dia!"

Imaginem isto tudo e atrevam-se.

Cabo Verde, Ilha da Boavista

2004/01/20

Entre-aspas: Julho de 1936 

«O novo amante entra nos hábitos do outro. Há coisas que se estilhaçam, que se revelam a uma nova luz. Tudo por obra de frases nervosas ou ternas, embora o oração seja um orgão de fogo.

Uma história de amor não é a história dos que perdem o coração, mas a dos que encontram esse habitante taciturno que, quando nele tropeçamos, significa que o corpo não engana nimguém, não engana coisa nenhuma (...) É um consumirmo-nos a nós próprios e ao passado.»

The English Pacient, Michael Ondaatje

2004/01/19

Pintura: O corpo por Egon Schiele 

Foi considerado pornográfico. Foi preso por distribuir desenhos "imorais" e acusado de relações sexuais com as adolescentes que lhe serviam de modelo. Pintou as mulheres de forma crúa. Pernas que sem pudor se abrem, masturbação, corpos que nos convidam a olhar, morte (até mesmo a sua), filhos que não teve, árvores podres, tudo num traço rápido colorido aqui e ali por cores mórbidas. Morreu 9 meses depois de Gustav Klimt, de quem absorveu o estilo, a 31 de Outubro de 1918 com 28 anos.

»»"Egon Schiele" - Taschen

2004/01/18

Música: Negro 1 

Tenho alguns discos que considero negros. Porquê? São discos pesados, escuros, intimistas ou violentos, que uso quando me quero recolher, pensar, escrever... Alguns já os conheço quase nota a nota, outros pareço não os reter, outros estão sempre comigo, outos aquecem-me só de pensar que estão alí ao alcance de um braço num qualquer momento mais difícil.

1. Boys for Pele de Tori Amos foi editado em 1996 e é o seu albúm mais descarnado e duro, onde o piano e as palavras são mais cruéis, onde o lado criança e deusa (Pele) estão mais demarcados, onde mais facilmente nos perdemos no emaranhado da teia sensualmente tecida. Onde Tori diz: "slag pit, stag shit, honey bring it close to my lips, yes, dont blow those brains yet, we gotta be big, boy, we gotta be big". Onde Tori, a mãe, amamenta um porquinho com o ar mais doce deste mundo e do outro.

2004/01/16

Entre-aspas: O prazer 

«E o que dizer sobre o prazer? É o prazer uma emoção? Mais uma vez, preferiria dizer que não, embora, tal como a dor, o prazer esteja intimamente relacionado com a emoção. Tal como a dor, o prazer é uma qualidade constitutiva de certas emoções, assim como um desencadeador de determinadas emoções. Enquanto a dor está associada a emoções negativas, tais como angústia, medo e tristeza, cuja combinação constitui aquilo que vulgarmente denominamos sofrimento, o prazer está associado a diversas tonalidade da felicidade, orgulho e emoções de fundo positivas.»

in "O Sentimento de Si", António Damásio

2004/01/15

Momentos: Assassinato 

como foi?
uma greta na face.
isso é tudo!
uma unha que aperta o caule.
um alfinete que se mantém sob a água
até encontrar as pequenas raízes do grito.
e o mar deixa de mexer-se.
como, como foi?
assim.
deixa-me! dessa maneira?
sim.
o coração saiu sozinho.
ai, ai de mim!

Federico Garcia Lorca

2004/01/14

Livros: Era uma vez uma mosca... 

Uma capa amarela, traços a negro, nenhuma palavra e uma história alucinada. São estes os ingredientes de A Mosca, um pequeno livro de Lewis Trondheim em banda desenhada. É verdade que não é nenhuma novidade, até porque já foi há uns anitos (quatro para ser mais preciso) que ganhou o prémio de melhor álbum estrangeiro na Amadora, mas foi só há uns dias que eu a descobri (à mosca, claro...) no catálogo online da Dr. Kartoon. Estava à procura de outro título, mas o nome do autor despertou-me a curiosidade porque já o conhecia de outros trabalhos. A capa cativou-me e lá vai um clique no botão de comprar... Uns dias depois o livro chegou pelo correio e li-o de um trago. É verdade que Trondheim usa e abusa de um humor peculiar, por vezes infantil, outras ácido, outras ainda delirante, mas contar a história de uma mosca desde que nasce tem dessas coisas... Vamos voar por aí?

2004/01/13

Momentos: Intensos. 

(...)

«O filho que não te fiz vem de noite beijar-me e chamar-me papá.»

In "o medo das palavras e as mãos sempre ao meio" - a. j. valverde

Música: Leonard Cohen 

Revisão da matéria dada, viagem ao passado, o que quiserem. Cruzei-me no outro dia com um dos CD's que mais me impressiona, pela mostra que nos dá das diferentes perspectivas de uma mesma obra, a de Cohen. I'm your fan é o nome do CD e passa por lá uma série de gente com as mais variadas experiências musicais. O melhor está no fim do disco, arrisco dizer que é melhor que a original a versão do Hallelujah (espero não me ter enganado), pelo John Cale. É de arrepiar (como dizia no outro dia uma amiga minha, não são só as mulheres que se arrepiam), a letra é a mesma, o piano é que não, e a interpretação é de nos "pregar ao tecto". Se não conhecem o disco, arranjem, comprem, façam o que for preciso! A causa vale de todo a pena.

Música: Já foi - Maria Rita 

Foi um concerto bonito, leve, que deixou um sabor simpático na boca. Foi um concerto de "colo". Das frases mágicas que aparecem nas letras das canções, uma ficou a "bold" na memória deste participante - "Agora só falta você".

Entre as músicas, bastante conversa. Dizia a cantora ao rever uma das entrevistas da mãe (Elis Regina) que esta, quando questionada sobre o que queria para a filha, respondeu que aquilo que era bom para ela não seria necessariamente bom para a filha. Na parte que me diz respeito, a senhora enganou-se. Para o bem de todos.

2004/01/11

Entre-aspas: O Barco... 

Há monólogos assim...

«Toda aquela cidade... Não se lhe via o fim... O fim, por favor, podia ver-se o fim? [...] Não foi o que vi que me deteve, foi o que não vi. Consegues perceber, irmão? Foi o que não vi... Procurei-o mas não estava lá, naquela cidade interminável havia tudo, mas não havia um fim. O que não vi foi onde acabava aquilo tudo. O fim do mundo. Ora pensa bem: um piano. As teclas começam. As teclas acabam. Tu sabes que são 88, quanto a isso ninguém pode lixar-te. Elas não são infinitas. Tu é que és infinito, e dentro daquelas teclas, é infinita a música que podes fazer. Elas são 88. Tu és infinito. Disto gosto eu. Isto pode-se viver. Mas se eu subir àquela escada, e à minha frente se desenrolar um teclado de milhões e milhões de teclas, milhões e biliões de teclas, que nunca mais acabam, e esta é a verdade verdadinha, que nunca mais acabam e que aquele teclado é infinito. Então, naquele teclado não há música que possas tocar. Estás sentado num banquinho errado: aquele é o piano em que toca Deus.

Cristo, mas não vias as ruas? Até as ruas eram aos milhares, como conseguem vocês lá escolher uma? Ou escolher uma mulher, uma casa, uma terra que seja a vossa, uma paisagem para admirar, um modo de morrer? Todo aquele mundo, aquele mundo em cima de ti e tu nem sequer sabes onde é que acaba. E que tamanho tem! Nunca têm medo, vocês, de acabarem desfeitos em mil bocados só de pensá-la, essa enormidade, só de pensá-la? De vivê-la...

Eu nasci neste barco. E por aqui o mundo passava, mas às duas mil pessoas de cada vez. E desejos aqui também os havia, mas não mais dos que podiam caber entre uma proa e uma ré. Tocavas a tua felicidade num teclado que não era infinito. Eu aprendi assim. A terra, é um barco demasiado grande para mim. É uma viagem demasiado longa. É uma mulher demasiado bela. É um perfume demasiado forte. É uma música que não sei tocar. Perdoem-me. Mas eu daqui não saio. Deixem-me voltar atrás.»

in "Novecentos", Alessandro Baricco

2004/01/10

Livros: Palavras pintadas de som 

Que a poesia de Al Berto nos merece toda a atenção já se sabia. Que é um poeta pouco falado em terra de poetas também. Que se pode pegar em palavras destas e misturá-las com música de bom gosto e encarnar (de "colocar carne em") os esqueletos duros e estranhos de Al Berto é uma agradável surpresa. E foi isto que Pedro d'Orey, Alexandre Cortez e Nuno Grácio, com a ajuda de vários outros músicos portugueses fizeram em Wordsong - Al Berto. Bom gosto e experimentação para 16 textos de Al Berto. É preciso ouvir. Ouvir. Ouvir. E voltar a ouvir, muitas vezes.

Momentos: Não vou por aí!! 

(...)
Deus e o diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principío nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga : «vem por aqui»!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei por onde vou,
- Sei que não vou por aí!

"Cântico Negro" - José Régio

2004/01/09

Música: Maria Rita 

Maria Rita é muito mais do que "a filha de Elis Regina". Maria Rita é um fenómeno na música popular brasileira que se impôs por si própria, pela sua voz e pela qualidade do disco de estreia. O facto de ser filha de Elis Regina e de César Camargo Mariano pode ter ajudado... Mas é o seu talento que explica o sucesso fulgurante.

E Maria Rita veio visitar-nos. Hoje e amanhã, no Coliseu de Lisboa, vamos poder ouvir ao vivo a sua voz emotiva e verificar se tem, de facto, a mesma entrega em palco que a mãe. Estou muito curioso. Será tão bom como se imagina?

2004/01/08

Livros: Carta ao pai... 

Há livros perturbadores. Kafka é pertubador. Dos vários livros famosamente conhecidos deste autor, há um que não conhecia, que vou lendo de mês em mês... 5 a 10 páginas... Não sei se o que me faz parar é a verdade absoluta como ele se dirige ao pai, ou a indignação espelhada nas suas palavras que acabo por rejeitar. Volto sempre. Absolutamente fascinante. De forma doseada...

«Concretamente só me lembro de um incidente ocorrido durante os meus primeiros anos de vida. Talvez também te lembres dele. Houve uma vez que passei a noite a choramingar e a pedir água, certamente não por ter sede, mas provavelmente para chatear, por um lado, e para me entreter, por outro. Depois de não terem surtido efeito as ameaças vigorosas, tiraste-me da cama, levaste-me para a varanda e deixaste-me por uns momentos sozinho em frente à porta fechada, na minha camisa de noite. Não quero dizer que agiste mal, talvez não tivesse sido possível dormires descansado de outra forma, o que eu quero é caracterizar o efeito produzido pelos teus métodos de educação sobre mim. É verdade que depois deste episódio me portei bem, mas fiquei ferido por dentro. Na minha maneira de ser nunca consegui ligar aquele pedir água sem sentido, que para mim era um gesto evidente, com o enorme terror de ser levado lá para fora.»

In "Carta ao pai" de Franz Kafka

2004/01/07

Momentos: Bernardo Soares 

A procura da verdade - seja a verdade subjectiva do convencimento, a objectiva da realidade, ou a social do dinheiro ou do poder - traz sempre consigo, se nela se emprega quem merece prémio, o conhecimento último da sua existência. A sorte grande da vida sai somente aos que compraram por acaso.

A arte tem valia porque nos tira de aqui.

Trecho 361, Livro do Desassossego

Música: A resposta é... Ouro! 

À partida não tinha qualquer razão para ouvir este disco. Não sabia quem era a senhora, não tinha ouvido mais que uma faixa na rádio, o nome não me dizia nada, apenas uma ideia de ter lido algo no Blitz. Então porquê falar desta peça enigmática, inclassificável, estranhamente viciante, com o nome de Silver or Lead? Porque é muito boa. Porque ao fim de 4 audições consecutivas apetece continuar a ouvir. Porque a poesia de Ursula Rucker é tão violenta quanto calmos e turtuosos são os caminhos que Jazzanova, The Roots, Mysterium e outros construíram para as suas palavras. Porque é sem dúvida um dos melhores álbums (de 2003) que ouvi até agora.

Destaque? Seja:
"dont underestimate me cause I do poetry; my rhime is sweet but deadly"
Faixa 04 - Untitled flow (com King Britt)

2004/01/06

Entre-aspas: História exemplar 

««Entrei.
- Tire o chapéu - disse o Senhor Director.
Tirei o chapéu.
- Sente-se - determinou o Senhor Director.
Sentei-me.
- O que deseja? - investigou o Senhor Director.
Levantei-me, pus o chapéu e dei duas latadas no Senhor Director.
Saí.»

Contos do Gin-Tonic, Mário-Henrique Leiria

2004/01/05

Música: O décimo-terceiro passo 

Há um som que paira livre de rótulos. Há nomes que dão a aparência de um super-grupo-para-facturar-uns-cobres. Mas há dois discos que desmentem esse receio. São assim os A Perfect Circle e não tarda muito para eles nos baterem à porta para um concerto único no Coliseu de Lisboa, a 20 de Janeiro.

Conheci esta banda invulgar através do seu segundo disco, Thirteenth Step. O CD saiu há uns meses e comprei-o depois de ler uma crítica muito positiva nas páginas do Blitz. O som da banda cativou-me pela forma como conjuga guitarras poderosas com letras e melodias que se enquadram na melhor tradição do rock alternativo americano. Liderados pela voz de Maynard James Keenan (dos Tool), os A Perfect Circle integram ainda o baixista Jeordie Orborne White (ex-Marilyn Manson), o guitarrista James Iha (ex-Smashing Pumpkins), o baterista Josh Freeze e Billy Howerdel que, para além da sua guitarra, empresta também a sua voz à música do grupo.

Se ao vivo souberem dar vida ao som deste álbum, então não é difícil imaginar que dia 20 teremos concerto! Recomendado.

2004/01/03

Momentos: Mário Cesariny 

queria de ti um país de bondade e de bruma

queria de ti o mar de uma rosa de espuma


Entre-aspas: O teatro da mente? 

Em tempos, este excerto contribuiu para aceitar o que não reconhecia em mim.

«A consciência tem de estar presente para que os sentimentos possam influenciar o sujeito que os tem, para além do aqui e do imediato. (...) Durante o processo evolutivo, a emoção surgiu, provavelmente, antes do despertar da consciência, e aparece em cada um de nós como resultado de indutores que nem sempre reconhecemos conscientemente. Por outro lado, é no teatro da mente consciente que os sentimentos produzem os seus efeitos mais importantes e duradouros.»

O Sentimento de Si, António Damásio

2004/01/02

Livros: É preciso vivê-la... 

Há livros assim. Há estórias assim. Que nos fazem sonhar, que nos fazem pensar. Que fazem qualquer um ter a pretensão da escrita. Afinal, pode ser fácil viver a escrever. Pode ser uma vida.

Viver para contá-la é uma obra estranha, com tanto de fantástico como de doloroso. Temos a vida de um homem, contada com prazer. Temos a vida e obra de um escritor, contada sem assombros nem sentimentalismos fáceis. É certo que é a vida de Gabriel Garcia Marquez. É também certo que é uma obra de escrita.

A vida não é a que cada um viveu, mas a que recorda e como a recorda para contá-la.

Livro para quem souber o que fazer com a vida...

Música: Tons de prazer 

Depois de ter sido uma revelação em 2002 com Out of This Mood, Lyambiko tornou-se numa confirmação absoluta neste último ano com a edição de Shades of Delight. Senhora de uma voz deliciosa, Lyambiko soube conciliar neste último disco as suas facetas europeia (alemã) e africana, colocando lado a lado standards como "Tenderly" ou "Isn't This a Lovely Day" com faixas de raiz nitidamente africana como "Malaika" ou "Savanaah Suite".

É esta alquimia que me conduz neste início de tarde. A voz de Lyambiko, o sol que entra pela janela e o novo ano que agora começa... Tons de prazer que vale a pena descobrir, ouvindo este disco com a disponibilidade reencontrada de quem tem uma peça rara nas mãos que vale a pena saborear. Ternamente...

Uma última palavra para o trio que a acompanha, o pianista Marque Lowenthal, o contrabaixista Robin Draganic e o baterista Torsten Zwingenberger. Estão irrepreensíveis!

2004/01/01

Momentos: Ricardo Reis 

Para ser grande sê inteiro: nada teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa.
Põe quanto és no mínimo que fazes.
Assim, em cada lago a lua toda brilha, porque alta vive.

14.02.1933

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