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2004/10/31

Livros: Ao Sul 

Sul. Andava há anos (literalmente) para comprar este livro. Peguei-lhe várias vezes mas, não sei bem porquê, acabei sempre por não o trazer comigo. Desta vez não resisti. Foi muito simples. Encontrei a nova edição acabada de sair no Som das Letras, um livraria em Évora onde dá gosto comprar livros, e não resisti. Ainda bem.

Ontem adormeci entre a Amazónia e Goa. Senti o som das pequenas orquestras que tocam em Veneza à porta dos cafés históricos. Senti o peso de uma história, li memórias nas paredes de casas abandonadas. Voltei ao Alentejo, a um outro Alentejo, e mergulhei no rio que se esconde em Cabo Verde. Existirá?

É este o Sul que se encontra em quanquer ponto cardeal. O Sul de nós próprios, o instinto que nos leva a viver e a contar. O instinto que nos conduz à acção de partilhar. E ao prazer de o fazer.

Sul - Viagens, Miguel Sousa Tavares, nova edição da Oficina do Livro.

2004/10/30

Entre aspas: Correr... sempre a correr... 

«...o ganancioso corre em direcção ao lucro, com tal ansiedade que nem se apercebe que a vida o ultrapassa, e que faz sol e que isso é bom. Um dia pára, exausto, e só então percebe que mal avançou porque todo o dinheiro do mundo não vale uma tarde sob o sol, rindo, ouvindo rir, reparando nos pequenos prodígios que nos rodeiam, o voo das aves, a elegância das palmeiras, o sabor da cerveja, o brilho nos olhos dos amigos.»

Quantos e quantos não conhecemos que correm sem parar...(?) Parar, para olhar o simples. Mesmo ali ao lado.

O excerto é da crónica da Faiza Hayat, na revista XIS do jornal Público de hoje.

2004/10/28

Segundos... 

a luminosidade é uma placa de zinco suspensa
do céu do deserto

Al Berto

2004/10/26

Música: Blues, blues, blues... 

Há coisas que não mudam.E isso é bom. Há pessoas que não mudam por mais que tentem. Há bandas também assim. (Jon Spencer) Blues Explosion é um destes casos. Ao fim de uma dezena de albúms e 12 anos de edições mantem uma chama forte, incansável. Porque tudo tem que ver com os blues, sejam eles mais rock ou mais hip-hop, mais calmos e dançáveis, ou mais rápidos e urgentes, cheios de ruído e destruição, ou de elctrónica marcada a golpes de Soul e Gospel. Nesta farmácia existe de tudo um pouco, mas o objectivo é apenas um: fazer música. Damage não surpreende muito. É pena. Mas que bom é ouvir a voz de Jon Spencer e a guitarra de Judah Bauer. Talves fosse de esperar mais de um albúm que conta com Martina Topley-Bird, ou com a produção de Dan the Automator ou DJ Shadow, entre outros. Apesar de não vir a ocupar um lugar cativo no meu leitor (por aqui preferem-se o Now I Got Worry e Acme), há faixas francamente boas (You been My Baby) e com um sabor ligeiramente novo (Hot Gossip, por exemplo).
Como diria P. Furtado, Fuck _________ (preencher o espaço com a palavra ou frase desejada), I got the Blues.

2004/10/25

Música: Poison, please... 

A primeira vez que ouvi, não conhecia nenhuma fotografia deste senhor, não tendo portanto o apoio da imagem para pensar sobre o que estava a ouvir. Descobri depois ser franzino, louro e muito distante da imagem que dele tinha feito a partir da voz, da elegância sublime da voz, que irrita muitos e afasta outros tantos, apaixonando mais ainda, felizmente. O albúm chamava-se Tatoo, 1999. O estilo aparentado do antigo crooner, o piano e a electrónica pareceram-me bastante refrescantes e ouvi esse CD quase até à exautão. Continuo ainda a ouvi-lo. Mas ultimamente voltei a ouvir o 3º trabalho de Jay-Jay Johanson, Poison, a obra mais apurada da sua carreira. Tecnicamente é melhor que qualquer dos outros anteriores ou do que do último, Antenna, do ano passado, explorando os mesmos ambientes, mas criando canções de amor e ódio quase perfeitas de tão simples e duras ao mesmo tempo. A ideia seria uma Tatoo pela manhã e Poison antes de deitar. A combinação perfeita...
(she poisened me like a virus, her love is running trough my veins...)

2004/10/24

Música: Revisões da matéria dada ? 

Que as modas são cíclicas parece um facto mais do que comprovado, especialmente na indústria musical, onde nada se perde e tudo se renova, tudo se reutiliza, por vezes com resultados francamente bons. Uma mesma forma de construir uma canção, um determinado som à base do instrumento x ou y, um efeito de voz, o velho rock n' roll, os estilhaços do jazz, a base do hip-hop, etc. Actualmente o rock de guitarras é de novo uma fonte especialmente em aberto, com os trabalhos de grupos dos anos 80 a ser revisto e aumentado por novos grupos, mas com pouca inovação. Revisões da matéria dada, portanto. O que não quer dizer que não tenham sido ultimamente editados discos excelentes. Franz Ferdinand é um dos melhores exemplos, quanto a mim, ou The Strokes. Mas existem muitos mais. Alguém se lembra de uns tais Duran Duran, que vederam milhoes de albúns há 20 anos, alguém se lembra da excitação que provocaram? Alguém se lembra de uns tais The Smiths? Alguém se lembar de uns tais Cure? The Killers acham que podem fazer algo semelhante, assumindo estas e outras referências. Hot Fuss, editado há um par de meses no nosso país traz esse velho sabor de inocência, de linhas simples de teclados e baterias agressivas, de guitarras urgentes, num conjunto exuberante que nos obriga a mexer nem que seja um pé para marcar o ritmo, especialmente o 1º single "Somebody told me".
(somebody told me you have a boyfriend who looks like a girlfriend...)

2004/10/20

Teatro: Encontros inesperados 

Quando começa um século? Quem lhe dá a luz que fará com que seja recordado? Será possível reconhecer o futuro antes deste ser vivido? Estas são algumas das perguntas que passam pela peça Picasso e Einstein de Steve Martin, em cena no Teatro da Trindade. Apesar de ser mais conhecido pela sua carreira de actor, Steve Martin é cada vez mais visto como um escritor inspirado e esta peça confirma-o.

Nos primeiros anos do Século XX, Picasso e Eistein estavam em Paris. Parece que nunca se encontraram, mas esse encontro podia ter acontecido. Teria sido um acaso feliz. É esse acaso que nunca aconteceu que esta peça explora. Início da noite, o bar Lapin Agile está a abrir. Einstein ainda não publicou a sua Teoria da Relatividade, Picasso ainda não marcou a história da pintura com as suas Demoiselles d'Avignon. Ambos se encontram e reconhecem um no outro o século que começa...

A ideia é sedutora, mas o futuro não se costuma anunciar com tanta clareza. E a peça força uma clarividência que não é verosímil. Se nos cruzássemos na rua com a personalidade que vai marcar o Século XXI, conseguiríamos reconhecê-la? Claro que não! Mas a peça tem bons momentos, um bom elenco e algumas boas ideias. É pena que lhe falte uma pitada de sal para nos prender à acção...

2004/10/17

Segundos... 

A palavra pátria está ligada aos patriotas. Se és um patriota excluis os demais, ou seja, achas que és o melhor e ignoras o valor dos outros. É uma palavra que deveria desaparecer.

"À conversa com... Luis Sepúlveda"

2004/10/16

Entre-aspas: «Sei resistir a tudo... 

... menos às tentações.» Esta é uma das frases que definem a obra e a passagem deste Homem por este nosso universo. 150 anos depois do seu nascimento, a 16 de Outubro de 1854, relembro o que escreveu Loureiro Neves:

«O.W. brlhou na sociedade londrina da sua época pelo seu dandismo, pela sua esfuziante inteligência e pelo seu individualismo ávido, que o levou a fulgurações de um humor imperecível. A sua vida real e a sua obra atiram-o para uma popularidade enorme, ora alçado à grandiosidade do seu génio, ora rebaixado à cominação pública pela sua relação homossexual, ao tempo, crime gravíssimo.»

Pois bem, fiquem com uma das minhas citações preferidas:

«Amar é ultrapassar-se...»

2004/10/15

Livros: As noites dos Endless... 

Segunda-feira, início da noite em Lisboa, Chiado. A BD Mania, mesmo ao lado, era uma tentação a que não me apeteceu fugir. Entrei. A loja é pequena mas parece impossível que consigam lá colocar tantos livros. Livros de banda desenhada, da melhor. É verdade... Calcular em euros o preço dos livros americanos multiplicando por 1,25 o preço em dólares é pesado, mas poder folhear, escolher e descobrir coisas novas é bem melhor do que fazer encomendas na Amazon.

Nessa noite apetecia-me precisamente isso, encontrar livros inesperados. Tive sorte... Já tinha ouvido falar muito de Neil Gaiman e da sua obra-prima, The Sandman, mas nunca tinha folheado nenhum dos livros dele. Peguei num livro, acabado de chegar, com um título curioso... Endless nights. Ao folhear, percebi que era um reencontro de Gaiman com a sua personagem maior, Dream, o seu Sandman, e com toda a sua família, os Endless.

Percebi também que este era um livro invulgar: ilustrado por artistas como Miguelanxo Prado, Milo Manara ou Bill Sienkiewicz, só para referir os meus preferidos. E as histórias são fascinantes. Um homem que se apaixona por uma mulher que é a Morte, ela própria, o Sonho que vê a sua amada apaixonar-se por uma estrela ou o Desejo que se consome em memória. E o Destino, a Destruição, o Desepero e o Delíro que esperam por ser lidos....

A propósito, começam amanhã na BD Mania os Free Comicbook Days... Vai ser uma semana cheia de promoções e, dizem eles, têm uns 4000 comics para oferecer. Tentador?

2004/10/14

Música: Riot 

O primeiro contacto que tive com os Kings of Convenience não foi muito feliz. Ouvi o 2º albúm, Quiet is the New Loud, que fez um furor comedido pela Europa, associando os rapazes de Bergen, Noruega, a gente como Nick Drake, Belle & Sebastian ou Paul & Simon. No entanto, e até porque as referências não me são particularmente queridas (exceptuando Nick Drake, claro!), o dito trabalho passou-me um pouco ao lado, parecendo-me mais um aproveitar de mistura de guitarras acústicas com bossa-nova e um par de vozes doces e simpáticas. Registei mas não me interessou por aí além, confesso. E agora encontro-me, neste tarde escura, ameaçadora de chuva, a relaxar calmamente ao som do último CD dos rapazes. E é bom. Riot on an Empty Street é muito melhor que o anterior. Menos "suavezinho", menos igual, mais bem trabalhado, mais coeso. Parece finalmente uma voz própria, madura. Conte-se com a gentileza já conhecida, mas com uma maior abertura aos sons, um banjo aqui, um saxofone ali, uma base rítmica mais aguerrida... Talvez este albúm mereça mais projecção do que aquela que irá ter, entalado em estantes indefinidas e que alguns dirão conhecer e apreciar.

2004/10/12

Momentos: ...de Lorca 

Caiu uma folha.
E duas.
E três.
Na lua nadava um peixe.
A água dorme uma hora
e o mar branco dorme cem.
A dama
estava morta na rama.
A monja
cantava dentro da toronja.
A menina
pelo pinho ia até à pinha.
E o pinho
buscava a plúmula do trino.
Mas o rouxinol
chorava suas feridas em redor do sol.
E eu também
porque caiu uma folha
e duas
e três.

Federico Garcia Lorca, Valsa nos ramos

2004/10/11

Segundos... 

A língua do coração provém das profundas necessidades de amor e calor, que queremos tanto dar como receber. Mas a nossa civilização tornou-nos medrosos e faz-nos sentir vergonha quando nos sentimos vulneráveis.

Arno Gruen

2004/10/10

Livros: Anjos e Demónios 

É verdade... Eu também fui fortemente atingido pela "febre da Vinci", ao ponto de já ter comprado uma boa meia dúzia de títulos directa ou indirectamente relacionados com o Código da Vinci de Dan Brown. Acho que o fenómeno, em si, é fascinante e a forma como uma obra de ficção conseguiu despertar a curiosidade e a capacidade crítica de tanta gente é, no mínimo, um acontecimento invulgar. Acho que o livro de Dan Brown tocou num ponto sensível do nosso imaginário colectivo e que, por isso, viu a sua voz multiplicada em todas as direcções.

Ao longo do livro, há uma série de referências a uma personagem feminina e ao envolvimento de Robert Langdon, o protagonista da história, em acontecimentos misteriosos que tiveram lugar um ano antes, no Vaticano. Com a curiosidade de procurar mais coisas escritas pelo autor, encontrei o livro onde ele conta esses acontecimentos, Angels and Demons, o primeiro em que ele desenha a personagem de Langdon. Comprei em inglês a edição em ebook, mas dentro de um mês este livro vai ser editado em Portugal.

Comecei a ler o livro e fiquei com uma sensação estranha... A "fórmula" é em tudo semelhante à do Código da Vinci: o livro começa com um assassínio misterioso, o pobre Robert Langdon está tranquilamente a dormir quando é acordado pelo telefone, resiste mas acaba por ser arrastado para uma aventura inesperada durante a qual encontra uma personagem feminina que sabe mais do que ele sobre a situação. O enredo gira em torno de uma sociedade secreta, desta vez os Illuminati... Para quem já leu o Código, seria possível um paralelo mais evidente? O que é curioso é que, mesmo com esta sensação de déjà vu, a leitura é compulsiva e os ingredientes estão todos lá. Mas este livro não atingiu nem um décimo do sucesso do seguinte... Porque será? ;)

2004/10/09

Entre-aspas: A cabeça e o coração 

Há palavras que fazem pensar, há outras que fazem sorrir. Estas foram as que eu escolhi para mergulhar neste fim-de-semana que começa...

«Foi um processo longo e difícil, como sempre o são as aproximações entre duas pessoas habituadas a estarem sózinhas. Primeiro parece fácil, é o coração que arrasta a cabeça, a vontade de ser feliz que cala as dúvidas e os medos. Mas depois é a cabeça que trava o coração, as pequenas coisas que parecem derrotar as grandes, um sufoco inexplicável que parece instalar-se onde dantes estava a intimidade. É preciso saber passar tudo isso e conseguir chegar mais além, onde a cumplicidade - de tudo, o mais difícil de atingir - os torna verdadeiramente amantes.»

Miguel Sousa Tavares - Não te deixarei morrer, David Crockett

2004/10/08

Música: Uma outra Adriana 

«Quando eu era criança e as pessoas me perguntavam... "Como é teu nome?" Eu respondia... "Adriana Partimpim" Meu pai até hoje só me chama de "Partimpim".»

É desta forma singela que Adriana Calcanhotto explica o pseudónimo com que assina, simplesmente, o seu último álbum. Adriana Partimpim, uma assinatura evocada pela infância para um disco que ela própria descreve como sendo "música para crianças"... Música para crianças? Talvez pela boa disposição que todo o álbum evoca, talvez pela liberdade que o novo nome lhe deu para criar sem se manter igual a si própria, talvez...

A verdade é que descobri este disco por acaso. Assim que tive oportunidade, cromprei-o e coloquei-o a tocar aqui em casa. Uma e outra vez, porque sorrir é um privilégio que só depende de mantermos a nossa criança viva. Com qualquer idade.

2004/10/07

Segundos... 

Suficiente saber não se poder saber.


Samuel Beckett

2004/10/02

Música: Jill Scott 

É realmente pena que algumas vozes ou alguns trabalhos demorem a ser reconhecidos, ou quando são, de forma pouco clara e incompleta, encostados a uma qualquer categoria e vendidos de forma enganosa. Jill Scott foi-me "vendida" como uma nova menina da soul (Neu-soul é um termo tão inócuo como outro qualquer rótulo no que se refere à esfera da criação musical), "engraçadota" e com umas músicas "giras". A verdade é, porém, muito diferente...

Mas o que me irrita mesmo é que se "venda" a poesia dura e livre de artifícios de Jill (uma poesia nascida nos guettos, que ela disse em clubs obscuros de jazz e hip-hop durante muito tempo), de forma tão simplicista e desprovida de sentimento. Apesar de não ter uma presença de spoken-word tão presente como no albúm anterior, a ideia é ouvir com muita atenção este "Beautifully Human: Words and Sounds, Vol. 2". Com muita atenção.

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