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2003/12/30

Livros: Pelas ruínas de Babel 

Em relativamente pouco tempo, José Carlos Fernandes conseguiu impôr-se como um nome chave da moderna banda desenhada portuguesa. Acabou de sair o seu último livro, As ruínas de Babel, e posso garantir uma coisa: o humor deste português de traço muito peculiar continua em grande forma!

Como no resto da série da Pior Banda do Mundo, cada história deste volume resume-se a duas páginas. E é em duas paginas apenas que somos confrontados com as atracções do Parque de Perversões Mengel, que conhecemos o Desporto Nacional (dar palpites do que não se sabe) ou a forma como um Bloqueio Metafórico impede a demonstração de uma máquina de fazer versos automaticamente... Mas não vos vou estragar a descoberta. Se tiverem oportunidade, folheiem um destes livros quando forem a uma livraria. Das duas uma: ou ficam seduzidos pelo tipo de humor e de escrita e compram logo os livros todos ou não gostam de todo. Eu cá aposto mais na primeira hipótese...

2003/12/28

Livros: Ficas comigo? 

Doze contos, doze histórias, doze encontros ou desencontros, doze formas de sentir a dor de viver, doze formas de respirar o sopro mágico da vida... É assim o Fica comigo esta noite, é assim o primeiro livro de contos da Inês Pedrosa. Foi publicado em Novembro, já vai na segunda edição, e quem o ler vai perceber rapidamente porquê.

Não foi há muito tempo. Estava deitado e tinha este livro ao lado, emprestado. O livro tinha-me sido recomendado por quem me costuma conhecer melhor do que eu próprio... Mesmo assim, peguei-lhe com desconfiança. Seria mais um daqueles livros de ler-e-deitar-fora? Nunca tinha lido nada da Inês Pedrosa e estava de pé atrás. Mas segui em frente. Olhei para o título do primeiro conto. "Só sexo". Só sexo??? Adiante... E durante as sete páginas que o conto dura sustive a respiração. Assim que o acabei de ler fechei o livro, num misto de assombro e alívio.

Este Natal comprei dois para oferecer. Decidi hoje que só vou dar um. O outro é para mim. Apetece-me perguntar, ficas comigo? Só por esta noite... Só para passar estas horas de escuridão em que fico sózinho comigo próprio. Tenho medo do escuro? Não. Só da solidão...

2003/12/27

Livros: O Fotógrafo de Kafka? 

Foi há muito pouco tempo que comecei a deliciar-me com banda desenhada... Imaginem! Nem sei bem explicar porquê, penso que sentia a seriedade da idade adulta como a não adequação à leitura dos quadradinhos. Bom, mas de facto confesso que me voltei a apaixonar por esta leitura através de Miguelanxo Prado. Tangências, Traço de Giz, entre outros, que num passeio pela Livraria ASA (que recomendo vivamente) no Atrium Saldanha, em Lisboa, descobri o mais fascinante retrato da nossa sociedade. A forma como Miguelanxo nos descreve as imagens e cenas reais do nosso quotidiano é tão arrepiante como divertida e é este equílibrio de retratação que o torna de facto apaixonante. Falo-vos de A Vida é um delírio - Obra completa. O paralelo com Kafka vem do prólogo deste livro, onde Paco Ignácio Taibo explica que no México diz-se que se Kafka tivesse nascido na cidade do México, trabalharia como jornalista em revistas cor-de-rosa... e se Miguelanxo passasse por aqueles ranchos urbanos, selvas de antenas de televisão, seria o fotógrafo de Kafka.

Dizer que mais? Descubram e divirtam-se! Num olhar para nós mesmos e para os outros aqui ao lado. ;-)

2003/12/26

Livros: As brumas de Tarróbriga 

Já foi há quase dez anos que encontrei, meio por acaso, os livros de João Aguiar. Lembro-me que foi numa tarde fria, em Évora, e que por alguma razão que agora me escapa sentia-me deprimido nesse dia. Dirigi-me à Praça do Giraldo, subi as escadas da Livraria Nazareth e comecei a folhear livros, meio ao acaso, meio conduzido pelas minhas paixões bibliófilas... Foi no meio dessa demanda sem rumo preciso que A Voz dos Deuses me veio parar às mãos. Li-o de um trago nos dois ou três dias que se seguiram e passei a ler, um atrás do outro, todos os livros que o João Aguiar tinha publicado e todos aqueles que ele publicou desde essa altura.

Neste ano em que cumpriu 60 anos de idade, João Aguiar regressou ao romance histórico com Uma Deusa na Bruma e ao tempo de Viriato que já tinha percorrido n'A Voz dos Deuses. Desta vez, a história passa-se longe do calor da resistência à ocupação romana, passa-se no norte, na Cividade de Terroso, à qual Aguiar chama Tarróbriga. E é nesse cenário do Século II antes de Cristo que conhecemos Túrio, uma criança invulgar tocada por um dom que é também uma maldição. Por entre as brumas de uma civilização que, sem o esperar, vive os seus últimos anos, somos levados a percorrer os caminhos de um tempo remoto mas que ganha vida através da mãos inspiradas do escritor.

Um nota negativa, contudo, para a editora. Em vez das magníficas capas rígidas a que nos habituou ao longo dos anos, a ASA resolveu adoptar capas moles e frágeis para as suas edições... A encadernação fazia parte dos encantos dos seus livros e é pena que a editora tenha decidido abdicar desse atractivo.

2003/12/23

Música: Que se f@£a o Natal? 

Ora bem, ora bem. Aqui está um rapaz que não tem medo de dizer o que lhe vai na alma. Parece que não gosta do Natal. Não o censuro. Não me agrada particularmente, também. Mas Paulo Furtado, transfigurado na pele de The Legendary Tiger Man, resolve deixar este grito explicado em disco: Fuck Christmas, I got the Blues.

Devo dizer que o albúm é delicioso. O One Man Band está forte e recomenda-se. Depois de Naked Blues, o Homem Tigre lança o segundo albúm. Blues depurados, com cheiro a décadas passadas, a solidão. Blues puros e duros. São músicas descarnadas, assustadas, brilhantes, soltas. 10 blues para ouvir não só no Natal. Apenas já disponível (por enquanto?) na edição do Blitz desta semana.

E, para mim, o hino deste Natal está encontrado...
(Uma última nota para o trabalho gráfico: excelente capa!)

2003/12/20

Livros: Netsuke 

Confesso-me fã da figura violenta do Wolverine. A pouco e pouco, Wolverine tornou-se uma das imagens mais queridas e interessantes da Marvel, especialmente pelo facto de não se saber (até há pouco tempo) a sua origem ou pela luta eterna contra o seu lado animal. E interessante também é o facto de este "herói" ter chamado a si artistas cada vez mais adultos, numa abordagem cada vez mais negra da sua história e daqueles que o rodeiam, à semelhança do que já aconteceu com Batman ou com DareDevil (exemplos são as obras de Frank Miller para estas duas figuras da BD).

Foi o que aconteceu também com George Pratt (reconhecido artista plástico), que ganhou o Prémio Eisner para Melhor Artista 2003 com o livro Netsuke, onde pega nos fantasmas da torturada alma de um homem que perdeu o amor e com ele a esperança. Um homem que não tem medo de se aventurar no desconhecido da sua vida para voltar a sentir, ainda que brevemente, o toque da amada morta, Mariko.

Disse pouco do livro? Eu sei. Só se compreende lendo. E especialmente espraiando os olhos nas belas telas que Pratt criou para nós. (Ah! Bela edição da Devir, como já começa a ser um óptimo hábito!!)

2003/12/19

Filmes: E o rei regressou... 

Aquilo que Peter Jackson fez com a recriação em cinema do Senhor dos Aneis é algo perfeitamente extraordinário. Ontem, depois de ver o Regresso do Rei (a terceira e última parte da saga), saí da sala de cinema com a sensação de ter visto o filme mais intenso que seria possível produzir...

Está tudo certo nesta conclusão da trilogia. O aparato visual é de tirar a respiração, a música de Howard Shore contribui fortemente para o ambiente épico e a forma como a história é contada prendeu-me à cadeira sem um bocejo durante as 3 horas e 20 que o filme durou. Mesmo nos aspectos em que Jackson diverge do original (por exemplo, Saruman fica preso em Isengard e o Shire não é flagelado), essas opções não prejudicam a integridade da narrativa mesmo para alguém que, como eu, já leu o livro três vezes... Aliás, esse é o ponto forte desta produção, a forma como nos conduz ao longo de uma narrativa fascinante sem nos perder. Agora resta-me esperar mais um ano para comprar a "edição especial" em DVD...

2003/12/18

Música: Quanto mais ouço... 

Vinicius. Sempre. Encontrei na Barata uma caixa de homenagem (mais uma) a este Senhor. É tudo simples. O desenho da capa (a preto sobre cinzento muito aberto), as letras, os poemas e as dedicatórias. Temos uma dívida enorme para com este homem, a saber: fazer o que nos vai na alma e partilhar com os outros. Todos os seus excessos são legítimos quando escreve e constroi da forma como o faz.

Aproveito para deixar outra sugestão relacionada com este homem. Há um ano (mais ou menos), a Valentim de Carvalho recuperou dos seus arquivos um serão em casa de Amália Rodrigues em que estão presentes em enorme tertúlia vários vultos da culttura de então ( Amália, Vinicius, Ary dos Santos, Natália Correia). A sugestão é clara: vão lá ver.

2003/12/14

Livros: Dispersos... de um observador 

Foi no Natal de 1989 que o meu pai me ofereceu este livro. Naquela altura, quando o li (não me recordo se o fiz na totalidade...), fiquei fascinada pelas palavras do meu pai, que viajou comigo por estas páginas. Adorava este autor, talvez pela forma de escrita em tom reflexivo e a exigência clara de garantir que a mensagem seria por nós bem "interpretada". Ou não. Hoje, redescobri-o com outra entrega na leitura. Quase nada se conhece de Agostinho e o que se conheceu já foi num período tardio para quem tanto nos deixou de si mesmo. Ou teremos sido nós que só o observámos demasiado tarde? O Homem não nasceu para trabalhar mas sim para criar. Encontrei pouca informação sobre um pensador do século passado, que é como quem diz, um homem paradoxal deste século. O livro por aqui, voltou para o espaço dos "livros de agora".

"Parece haver gente que vive de não resolver problemas ou que tem o maior gosto em não sair dos círculos de giz que traçou a si próprio; provavelmente os verdadeiros homens são todos de acção (...); e os que ficam rodando e rodando, incapazes do rápido e decidido esforço que lhe removeria barreiras ou do propósito de viver como se nada mais houvesse para fazer, e porventura é o ócio o que realmente move na acção, esses são apenas esboços de homem, o mole material que ficou a meio caminho de dar o rijo bronze das estátuas."

In Dispersos, Agostinho da Silva, ICALP, Paulo Esteves Borges

2003/12/12

Música: O melhor álbum do ano? 

É muito estranho, mas um dos grandes lançamentos deste ano é um disco dos Beatles... Mesmo depois da morte de John Lennon e, mais recentemente, de George Harrison, os quatro de Liverpool continuam a dar cartas e a ser uma fonte inesgotável de receitas. Vai ser esse o caso, muito seguramente, de Let It Be... Naked, um álbum acabadinho de sair, mesmo a tempo do Natal. Por mera coincidência, como é óbvio...

Mas a história deste disco é daquelas que vale a pena conhecer. Os anos 60 estavam a chegar ao fim e, com eles, os Beatles aproximavam-se de uma separação litigiosa em torno das crescentes divergências entre os dois génios do grupo, John Lennon e Paul McCartney. Como uma das últimas tentativas para recuperarem a simplicidade e descontracção de outros tempos, resolveram gravar como documentário varias sessões de gravação que culminaram no seu último espectáculo ao vivo, meio improvisado, no telhado da Apple. Dessas sessões resultaram 33 bobinas nas quais ninguém quis pegar logo a seguir e que só foram editadas em 1970 com o título Let It Be, acabando por ser o último disco do grupo.

O problema é que a editora tinha decidido entregar as bobinas a Phil Spector, para que ele assegurasse a produção do disco. E Phil Spector, conhecido pela sua Wall of Sound, encheu as canções com coros delicodoces e arranjos com metais e cordas. O resultado desagradou desde o primeiro instante a Paul McCartney (horrorizado, sobretudo, pelo "assassínio" da sua 'The Long and Winding Road') e este, agora, resolveu acertar contas com a história. E é isso que Let It Be... Naked é. A versão limpa do antigo Let It Be, tal como McCartney gostava que tivesse soado. Ontem à noite diverti-me a comparar, faixa a faixa, o original com a nova versão e, os nostálgicos que me perdoem, prefiro largamente o novo disco. O melhor disco do ano, afinal, parece que foi gravado há 35 anos...

2003/12/10

Livros: Os segredos das igrejas abandonadas 

Ontem ao início da noite dei por mim a percorrer livrarias. Podia tê-lo feito só pelo prazer de folhear livros ou para me afastar das ansiedades do dia. Mas não, tinha uma missão concreta. Ia à procura das Conversas Terminais do Fernando Esteves Pinto. Não tive sorte nenhuma porque, por alguma razão, nem a primeira nem a segunda livraria tinham esse livro. Fica para a próxima...

Enquanto percorria as estantes à procura desse livro fui passando os dedos por outros volumes. Parei junto a um conjunto de livros de pequeno formato da Assírio & Alvim, a colecção Gato Maltez. Sempre gostei destes pequenos livros e, aliás, não foi há muito tempo que escrevi aqui sobre um deles, o Diário de um louco, do Nikolai Gógol.

Não foi o primeiro nem o segundo volume em que peguei mas foi aquele que levei comigo para casa: O Livro das Igrejas Abandonadas. Não conhecia nada sobre este livro nem sobre o autor, mas folheando-o apeteceu-me lê-lo. Descobri depois que o autor, Tonino Guerra, é um notável argumentista de cinema que trabalhou com realizadores como Fellini, Antonioni ou Tarkovski. Cheguei a casa, sentei-me e comecei a ler. Passei por todas as pequenas histórias, saboreando-as como se fossem pequenas aguarelas desenhadas pelo traço solto de um artista experiente. Afinal, tanto que há a dizer sobre duas dúzias de igrejas abandonadas...

2003/12/08

Ballet: O flamenco de Sara Baras 

É já no próximo dia 10 de Dezembro que vamos receber no Teatro S. Luís uma bailarina que cedo começou a sentir no seu próprio corpo a energia das "gentes espanholas" que tão bem conhecemos. Dizem que de Espanha nem bons ventos nem bons casamentos. Como o provérbio nada me diz... deixo-vos a sugestão de conhecerem Sara Baras, que aos 8 anos de idade iniciou as suas actividades artísticas.

Nascida em Cádiz, recebeu este ano o Prémio Nacional de Dança de Espanha. Amor, liberdade e sonhos, é como se define o programa que nos vem apresentar, que se intitula "Mariana Pineda", baseada numa obra de Frederico Garcia Lorca. Para mim é suficiente. Para quem ficar com dúvidas, passe por estas bandas.

Livros: 1000 Photo Icons 

Parece que tudo começou com experiências de desenho através de silhuetas, por volta do séc. XVIII, mas é o nome de Daguerre que começa a fazer a história da fotografia. E é isso que este livro editado pela Taschen se propoê explicar, exemplificar, analisar, mostrar. Caminhamos guiados pelas imagens e pelos textos através da colecção da George Eastman House ao longo de cerca de 750 páginas e mais fotografias.

Não há muito mais a dizer, excepto que este livro tem a inegável qualidade a que esta editora de arte nos tem habituado. A não perder por todos os que amam a beleza, esteja ela em que forma estiver.

2003/12/04

Música: A vingança do Tango 

É já amanhã que os Gotan Project regressam a Lisboa para mais um concerto na Aula Magna. Fundindo tango e electrónica ("Gotan" é um anagrama de "tango"), este colectivo soube transformar sem adulterar a linguagem do tango argentino, aplicando-lhe a estética do dub e do downbeat. O seu primeiro álbum, La revancha del Tango, é um clássico precisamente por essa alquimia, para a qual o trio fundador Philippe Cohen Solal, Christophe H. Müller e Eduardo Makaroff soube trazer excelentes músicos argentinos exilados em Paris, como a cantora Cristina Villalonga ou o bandeonista Nini Flores.

Este ano a carreira internacional dos Gotan Project recebeu um novo impulso quando receberam o Prémio Revelação nos World Music Awards da BBC, por isso não se espera nada menos do entrega total no concerto de amanhã à noite. Os Gotan começam esta noite a sua passagem por Portugal com um concerto em Braga e despedem-se do público português no sábado à noite no Porto. Parece que os três concertos estão quase esgotados, mas talvez ainda vá a tempo...

Livros: Síndroma das páginas 106 e 107 

Há varias formas de colar um autor ou obra apenas a um momento ou citação ou imagem. Há varias formas de reduzir um obra ou um autor apenas a uma imagem ou um momento ou uma citação. Disseram-me: Devias ler o tipo do quero morrer. Quem?, perguntei. Bem, não sei o nome mas o tipo tem um livro em que repete durante duas páginas a frase quero morrer. E eu li. E passamos assim a reduzir José Luís Peixoto a duas páginas do livro Uma casa na escuridão? Talvez não. Eu explico: reduzir um jovem autor como este é impossível.

Quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler, quero ler...

2003/12/03

Teatro: Arte? Arte! 

«Imagina uma tela de um metro e sessenta por um metro e vinte... fundo branco... completamente branco... e, na diagonal, pequenas riscas brancas... estás a ver? E talvez uma risca branca, em baixo, para completar...»

Este fragmento é uma boa descrição da obra de arte que serve de pretexto para pôr a nu a fragilidade da amizade entre três homens na peça Arte de Yazmina Reza. Com a interpretação de António Feio, José Pedro Gomes e Miguel Guilherme, esta peça está agora de regresso ao Teatro Villaret, em Lisboa, depois de ter feito sucesso com o mesmo elenco há cinco anos.

Eu não vi a representação original, por isso não posso comparar as duas. Mas gostei do que vi há poucos dias. Não pela comédia (o riso às vezes sai demasiado fácil, quase forçado...), mas sim pela forma como a peça explora a redescoberta da amizade entre os três personagens que passa de fachada a ruptura, depois de conflito a reconstrução. O quadro branco só é isso mesmo, uma tela para projectarmos o que quisermos...

2003/12/02

Música: Talento... 

Uma guitarra suavemente dedilhada... Uma voz rouca que canta em francês. Melodias simples que desenham palavras. Um ambiente que contagia e relaxa... É assim a música de Carla Bruni. Italiana, nasceu em Turim em 1968 mas é em Paris que vive desde que tinha quatro anos de idade. Aos 19 abandonou a Sorbonne e o curso de arquitectura por uma carreira fulgurante como top model. Depois de ter chegado ao topo, abandonou o mundo da moda há cinco anos por, disse, "já não suportar ser o objecto da criatividade dos outros"...

Já respirava música desde criança, pois essa era a profissão quer do pai quer da mãe. Durante a sua carreira como modelo, uma guitarra acompanhava-a frequentemente nas viagens. E talvez seja essa guitarra que acompanha hoje a sua voz doce. Este ano editou o seu primeiro disco. Quelqu'un m'a dit é um conjunto de 12 canções e só uma não foi escrita por ela. É verdade, não revoluciona a história da música popular, mas fascina, cativa, apetece ouvir... Tal como a estou a ouvir agora, ao fim do dia, em casa, enquanto o ar aquece.

2003/12/01

Livros: Traídos pelo próprio... "EU"? 

«O desenvolvimento humano oferece duas alternativas, a do amor e a do poder. A via do poder, que é subjacente à maior parte das culturas, conduz a um Eu que reflecte a ideologia da dominação. Um EU desses assenta num estado de fragmentação, mais concretamente naquela cisão no EU que recusa o sofrimento e o desamparo como sinais de fraqueza e, ao mesmo tempo, põe em relevo o poder e a dominação como meios de negar o desamparo. A obtenção do que na nossa civilização passa por sucesso pressupõe um Eu assim constituído. Tal situação representa a antítese da autonomia (...). A autonomia é o estado de integração em que uma pessoa se encontra em plena concordância com o seus sentimentos e as suas necessidades.»

In "A traição do EU", Arno Gruen

Com todas as dúvidas baseadas na resistência em olhar um pouco mais para o "nosso próprio umbigo", este é um livro provocador. Para mim, naturalmente. Um amigo dizia-me este fim-de-semana que afinal nós (!) até não estamos muito gravemente afectados... «Senão repara: quantos conheces a correr velozmente atrás de um poder, abdicando deles mesmos, sem conseguirem sequer entender que os ténis que levam calçados são de ginástica desportiva e não de "endurance"?!» Bom... seja lá o que isso for, reconheço que corro muito. E de autonomias, só se considerarmos o cronómetro dentro de nós. Traídos por nós mesmos ou nem por isso, confesso que começo a preferir praticar "passada lenta"...

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