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2005/04/30

Entre-aspas: Para continuar a fugir... 

«Um homem para quem a vida só é tolerável se ele puder permancer na superfície de si mesmo, sentir-se-á naturalmente satisfeito se puder oferecer aos outros não mais do que essa superficie. São poucas as exigências a cumprir e não é preciso satisfazer qualquer compromisso.

O casamento, pelo contrário, fecha a porta.

A nossa existência é confinada a um estreito espaço em que constantemente somos forçados a revelar-nos - e, portanto, constantemente obrigados a olhar para dentro de nós mesmos, a examinar os nossos próprios abismos.

Quando a porta está a aberta, nunca há problema: podemos sempre fugir. Um homem pode evitar confrontações indesejáveis consigo mesmo ou com os outros - basta sair porta fora.»

Inventar a Solidão - Paul Auster

2005/04/25

Momentos: Pelo Alto Alentejo 

Os homens desertaram destas terras.
Só um bacoco, a rufiar com a sombra,
só um bacoco, bolsado das tabernas,
em sete palmos, só, se reencontra.

Turistas fotografam cal e pedras:
o cubismo de casas e ruelas.
Nas soleiras sobraram umas velhas.
Escorre-lhes o preto pelas canelas.

Num caixote com rodas, meigo tolo,
- um que não veio, aos ésses, lá das Franças,
passar com os velhotes as vacanças -
preso a um fio de cuspo, vende jogo.

Eu e a Teresa procuramos queijo.
O melhor que se traz do Alentejo.

Alexandre O'Neill

2005/04/21

Segundos... 

Tenho medo dele...


João Paulo II sobre Joseph Ratzinger, agora Bento XVI

2005/04/16

Filmes: Mar Adentro 

Há qualquer coisa de inquietante na ideia da morte, apesar de cada vez mais aceitarmos que ela é inevitável, logo fora do baralho das cartas que se discutem. Desculpem, não há qualquer coisa de inquietante na ideia da morte: tudo nela é inquietante. Escrevem-se livros, fazem-se filmes, desenha-se e pinta-se, fala-se sobre a morte, logo não me parece que seja assim tão pouco importante. Vamos esquecer a primeira frase deste texto, certo?

Todos os dias morremos com a ideia (o medo?) de morrer ou ver a morte dos outros. E quando alguém decide que quer morrer, a primeira ideia é que seja alguém que precisa de ajuda. Para viver. Mas o que pensamos quando alguém afirma precisar de ajuda, sim, mas para morrer? Todos os nossos medos se aglomeram numa força que pretende negar essa vontade de outro, como se estivesse a pedir a nossa própria morte. Como algo pessoal.

Ramon Sampedro demorou 28 anos, 4 meses e alguns dias a conseguir a morte que o libertou. Tetraplégico, dono de um lucidez invejável, este homem natural da Galiza, sacudiu as ideias políticas e as convicções religiosas com um pedido simples: quero morrer. Alejandro Amenabar fez o filme, Javier Bardem representou. Mar Adentro. Para ver, pensar...

2005/04/14

Livros: Uma cidade de vidro 

Foi um número errado que fez com que tudo começasse...

O telefone toca a meio da noite. Um toque insistente, penetrante. Tão forte que parece real. Quinn resolve atender. "Sim?" Uma voz estranha responde do outro lado: "Estou a falar com Paul Auster? Eu queria falar com Paul Auster, da Agência de Detectives Auster". Responde sem pensar duas vezes. "É engano!" E desliga. No dia seguinte a situação repete-se... E que aconteceria se ele dissesse que sim, que era Paul Auster, o detective, quem estava responder?

É assim que começa City of Glass, uma novela de Paul Auster, o próprio, o escritor. É também assim que começa a graphic-novel City of Glass, uma adaptação genial de Paul Karasik e David Mazzuchelli, dois magos dos comics que recrearam a história de Auster e lhe deram nova vida.

Traços negros, densos, simples... Desenho descontraído, aparentemente ingénuo, quase infantil. Um ritmo único, uma tradução perfeita das palavras em formas. A prova que uma boa história renasce cada vez que é contada de novo. Uma cidade de vidro que está à nossa espera... Atreve-se a dizer que sim, que é o detective?

2005/04/11

Música: Bossa de Caetano 

Há pequenos prazeres que nos aliviam a alma, especialmente em dias em que o sol começa a querer anunciar outros dias mas o frio insiste em deixar a sua marca. Manhãs de domingo passadas na cama, um sumo de laranja, um croissant, um corpo ainda quente enconstado ao nosso lado, uma aldeia do outro lado da janela. A preguiça que aprendemos a amar. Um disco a rodar baixinho, a encher o quarto de paz e harmonia.

Podia ser Caetano e as suas-de-outros bossas, lentas, doces...

Podia ser Caetano e um disco de 2000, Bossa de Caetano, e as vozes e sons de Jobim, Valle, Veloso, Porter, Buarque...

Pode, deve ser Caetano...

2005/04/09

Livros: A Cuba de Korda 

Foi em Março de 1960. Um barco estrangeiro explodiu no cais de Havana, matando 136 pessoas. Fidel Castro tinha tomado o poder no país há apenas um ano, a revolução cubana ainda estava fresca e a explosão foi explicada como uma operação terrorista... Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre estavam de visita à ilha e acompanharam Fidel Castro numa cerimónia em memória das vítimas... Foi no meio do seu longo discurso que Fidel pronunciou pela primeira vez o desafio "pátria ou morte", a tensão sentia-se nos olhares.

Che Guevara estava ao lado dele, em segundo plano. Por um breve instante, o Che dá um passo em frente e olha a multidão. Há qualquer coisa de muito especial nesse olhar... Alberto Korda estava atento e capta esse instante em duas fotografias tiradas com a sua Leica M2 e uma lente de 90mm. Korda tinha-se tornado no fotógrafo não oficial de Fidel, de Che e da revolução cubana. Mas não percebeu logo o poder da imagem que tinha captado... Ficou esquecida na mesa de montagem do jornal, preterida em favor de uma fotografia de Fidel com braço erguido, ameaçador.

Sete anos depois, o editor italiano Feltrinelli visitou Cuba e conheceu Korda. Depois de ter mostrado interesse por fotos do Che, Korda ofereceu-lhe duas cópias da sua foto preferida. Nesse mesmo ano, a 9 de Outubro, Che Guevara é assassinado na Bolívia e torna-se num ícone da juventude europeia do fim dos anos 60. Feltrinelli não perde tempo e imprime milhões de exemplares de cartazes com a foto de Korda... O fotógrafo nunca recebeu um tostão pela autoria de uma das imagens mais reproduzidas do mundo.

Esta é uma das histórias que Alessandra Silvestri-Lévy e Christophe Loviny contam, de outra forma, no livro Cuba por Korda. Disponível numa edição brasileira, este livro é um convite para a uma viagem fascinante a uma terra estranha, desenhada com luz. As fotos de Korda revelam uma Cuba diferente, um espaço onde a beleza de Norka (a sua companheira e modelo preferida) se mistura com a dureza da Sierra Maestra e a euforia da revolução. É esse olhar pessoal, profundamente envolvido, que torna as imagens de Korda em peças únicas, irrepetíveis. Korda morreu há três anos, mas acredito que não nos vamos esquecer das suas fotografias tão cedo...

2005/04/04

Filmes: Uma História Simples 

Uma história simples. Talvez não possa existir mais nenhum Alvin... Mas existiu. E chamava-se Alvin Straight. Nasceu em 1921 e morreu em 1996.

A persistência e a vontade de querer. De forma simples.

Este Homem, de sorriso simples e cativante, esta noite de sábado entrou pela minha sala e disse-me que afinal eu poderia chorar com medo de um dia de envelhecer. Ainda assim, fez-me acreditar que mesmo um corpo cansado, frágil e entorpecido, não chega para estancar a vontade de quem quer continuar.

E eu...que longe estou de uma velhice, quantas vezes não parei até aqui... porque cansada. Porque frágil. Porque entorpecida. Quantas vezes não consigo discernir e simplificar o que de melhor e de menos bom a vida me presenteia. O amor altruísta que este filme nos transmite, é a prova que todos podemos ser simples, simplesmente aceitando o que somos. Sem supérfluo.

Sem a ousadia de alguma vez poder sentir-me perto de Alvin, são tantas as emoções boas que agora sinto que quem sabe ... talvez venha a conseguir não mais me esquecer... ou voltar-me-ei a lembrar dentro de 35 anos.

E qual o Homem que segue meses a fio, num aparador de relva com um atrelado de mantimentos, aparentemente só porque tem um irmão com quem não fala há 10 anos...e que agora sente que o pode perder de vez?

E nós, como somos? Os nossos irmãos e família que estão mais perto que a distancia destes meses em atrelado... não estarão mesmo aqui ao lado a passarem-nos despercebidos? E se quando envelhecermos já não formos a tempo? E quantos de nós acreditariam num cortador de relva...

Sim Alvin, "o que de pior tem a velhice é lembrarmo-nos de como éramos em novos".

Seja lá o que isso representa... "ser-se novo".

2005/04/02

Segundos... 

As pessoas apresentam diferentes limiares de tolerância à pressão emocional, são susceptíveis de serem perturbadas por coisas diferentes, têm diferentes tipos de "pele" ou de "membranas" e, por isso, necessitam também de formas de apoio diferentes.

Afecto e Emoção - Graham Music

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