<$BlogRSDUrl$>

2004/04/29

Segundos... 

Falar é ter demasiada consideração pelos outros. Pela boca morrem o peixe e Oscar Wilde.

Fernando Pessoa

2004/04/28

Momentos: ...de encontrar e perder... 

Em todas as ruas te encontro, em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo, sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar que te atravessou a cintura
tanto

tão perto

tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco

"Poema" Mário Cesariny

2004/04/27

Livros: Especulações? 

A história do Universo, tal como é contada, por exemplo, no Cosmos de Carl Sagan ou na Breve História do Tempo de Stephen Hawking, parece quase não ter mistérios por desvendar. O Big Bang, o Universo em expansão, a teoria da relatividade de Einstein, tudo parece fazer sentido numa grande narrativa que nos faz sentir pequenos perante a enormidade do Cosmos. Os enigmas que certamente persistem custam a sair dos círculos dos especialistas. A complexidade desses enigmas será tão assustadora que um simples curioso das coisas da ciência não os possa entender? A resposta parece ser que não são assim tão impenetráveis.

A Gradiva publicou há pouco tempo Mais Rápido que a Luz, um livro de João Magueijo que coloca ao alcance dos que não são especialistas os enigmas e os erros que Einstein nos deixou. Mais do que isso, Magueijo partilha connosco a "biografia" da sua especulação científica que procura contribuir para preencher essas lacunas. E essa especulação parte de uma pergunta aparentemente inocente mas que põe em causa quase toda a física moderna: e se a velocidade da luz não for constante?

João Magueijo é português, nasceu em Évora há trinta e poucos anos, é professor de Física Teórica no Imperial College de Londres e pode ficar na história da ciência como o homem que resolveu o erro de Einstein. Ou talvez não... Porque este livro é sobretudo uma viagem à ciência real, àquela que se alimenta dos erros e das ousadias. Uma ciência que vive de especulações e de ideias imperfeitas. Uma ciência profundamente humana:

«Normalmente, designa-se por especulação algo com que não se concorda, pelo que se poderia pensar que a especulação não tem qualquer papel a desempenhar em ciência. Na verdade, dá-se exactamente o contrário. Em física teórica, e especiamente no meu ramo, a cosmologia, passamos a maior parte do tempo a tentar descobrir falhas nas teorias que já existem, bem como a analisar novas teorias especulativas que porventura permitam descrever tão bem ou melhor que as anteriores os dados experimentais. Pagam-nos para duvidar de tudo o que outros propuseram antes, para propormos nós próprios alternativas ousadas e para discutirmos interminavelmente entre nós.» Fascinante...

2004/04/26

Teatro: O Mocho e a Gatinha 

Gostei mesmo desta peça! Já a fui ver há quase duas semanas e só não escrevi sobre ela antes por falta de inspiração. Isso mesmo, falta de inspiração. É que saí do Teatro-Estúdio Mário Viegas de tal forma bem disposto que nada do que comecei a escrever me pareceu fazer justiça à inspiração com que o Simão Rubim e a Vanessa Agapito dão vida a Marcelino e a Dora. Hoje decidi que já chegava. Por este andar, ainda a peça saía de cena sem que eu encontrasse as palavras certas para descrever a forma hilariante que a Companhia Teatral do Chiado encontrou para encenar o texto de Bill Manhoff e para nos fazer pensar sobre esta sociedade e sobre nós próprios, num jogo de espelhos cruzados cujo resultado é sempre imprevisível. E isso não podia acontecer. Por isso aqui fica a provocação... É uma pena perder esta peça.

O Mocho e a Gatinha, de Bill Manhoff, em cena no Teatro-Estúdio Mário Viegas pela Companhia Teatral do Chiado. Encenação de Juvenal Garcês e interpretação de Simão Rubim e Vanessa Agapito.

2004/04/25

Momentos: ...de Abril 

O pássaro chegou
e com ele a luz:
de cada trilo seu
nasce a água.

E entre a água e a luz que o ar desata
está a Primavera inaugurada já,
sabe a semente que já cresceu,
na corola desenha-se a raiz,
abrem-se por fim as pálpebras do pólen.

Tudo isto fez um simples pássaro
no alto dum verde ramo.

Pablo Neruda, Plenos Poderes

2004/04/23

Segundos... 

Inclina-te como a rosa, só quando o vento passe.


Eugénio de Andrade

2004/04/22

Livros: A tia Tula 

A Tia Tula é a mais popular novela de Miguel de Unamuno (1864-1936). E é, segundo o seu autor, "a história de uma jovem que, recusando noivos, fica solteira para cuidar de uns sobrinhos, filhos de uma irmã que lhe morre. Vive com um cunhado, a quem rejeita para marido, pois não quer manchar com o compromisso conjugal o espaço em que respiram ar de castidade seus filhos. Satisfeito o instinto de maternidade, para quê perder a virgindade? É virgem mãe". Mas, sobre este pano de fundo, tece Unamuno um obra carregada de sentidos plurais: Tula, a protagonista, que encarna a concepção tradicional de família e da mulher, exemplifica a figura do agonista unamuniano dividido em mil contradições.

As nossas próprias contradições, no fundo...

2004/04/21

Entre-aspas: A forma como desejamos 

Na sequência de uma pesquisa feita por António Damásio:

«Se a meta do apetite fosse permissível e consumável, a satisfação do apetite causaria a emoção de alegria e faria com que o sentimento de desejo desse lugar aos sentimentos de prazer e exultação. Se por um lado, o atingir da meta fosse impedido, o sentimento final seria o de frustração, zanga ou cólera. No caso do processo ficar suspenso durante algum tempo, na região deliciosa dos sonhos acordados, tudo acabaria em calma. (...) Será possível que a fome e a sede sejam assim tão diferentes do desejo sexual? Mais simples, sem dúvida, mas não realmente diferentes em matéria de mecanismo. essa é certamente, a razão porque fome, sede e desejo sexual se podem misturar tão facilmente, e por vezes compensar-se mutuamente. (...) Seja como for, o objecto do desejo e as memórias pessoais que dizem respeito a esse objecto interagem mútua e abundantemente. As ocasiões passadas de desejo, as nossas aspirações passadas, os nossos prazeres passados, reais ou imaginários, todos eles contribuem para que o desejo se projecte de forma particular na nossa mente.»

In Ao Encontro de Espinosa, António Damásio

2004/04/20

Momentos: Trinta anos depois 

Trinta anos depois querem tirar o r
se puderem vai a cedilha e o til
trinta anos depois alguém que berre
r de revolução r de Abril
r até de porra r vezes dois
r de renascer trinta anos depois

Trinta anos depois ainda nos resta
da liberdade o l mas qualquer dia
democracia fica sem o d.
Alguém que faça um f para a festa
alguém que venha perguntar porquê
e traga um grande p de poesia.

Trinta anos depois a vida é tua
agarra as letras todas e com elas
escreve a palavra amor (onde somos sempre dois)
escreve a palavra amor em cada rua
e então verás de novo as caravelas
a passar por aqui: trinta anos depois.

Manuel Alegre

2004/04/19

Música: María de Buenos Aires 

Tango Operita Maria de Buenos Aires
Música: Astor Piazzolla; Libretto: Horacio Ferrer


Segundo reza a lenda, a parceria começou em 1967, com a entrega do libretto de Ferrer para que Piazzolla composesse o projecto que tinha de teatro musical e poético. No ano seguinte estreavam e gravavam a obra em dois LP´s.

Quase trinta anos depois, Gidon Kremer reune a sua Kremerata, e com a ajuda de Ferrer regrava aquela que é uma das obras mais pungentes de Piazzolla: a vida de Maria de Buenos Aires. Diz-se que é a história do Tango, a saída de Maria dos arrabaldes para o centro da cidade, para o cabaré e bordel, esgotamento da sua forma, a sua decadência e morte e, no final, a espectacular retoma da vida. Piazzolla reuniu os géneros diferentes de Tango, a música clássica, o jazz, para dar forma a esta apaixonante história, numa retoma deslumbrante da magia do Tango, mas um novo modelo, uma nova vida, o Tango Novo.

2004/04/18

Livros: Antologia do esquecimento 

Primeiro lemos o livro. Depois, se tivermos sorte, conhecemos o autor.

Esta história não foi assim... conheci o Henrique em primeiro lugar e, horas depois, timidamente (a pedido de um "bisturi" diplomata...), ofereceu-nos o seu livro.

Há diferenças substanciais porque, enquanto se lê, vamos gradualmente buscar as imagens, a voz, o olhar da pessoa por detrás das palavras. Quem ainda não o conhece, não hesite.

Antologia do esquecimento, onde é possível dizer «dá-me um pouco do teu sonho para poder sonhar-me em alma».

2004/04/17

Momentos: Migração 

Ah
não me venham dizer
oh
não quero saber
ah
quem me dera esquecer

Só e incerto é que o poema é aberto
e a Palavra flui inesgotável!

in Nobilíssima Visão, Mário Cesariny

2004/04/16

Segundos... 

Se eu morrer aqui fui assassinada pelo que dá na televisão.


Sarah Kane

2004/04/15

Música: As oito estações 

O conceito é original, mesmo inesperado. O violinista Gidon Kremer teve a ideia de juntar no mesmo disco duas obras de arte de hemisférios distintos que parecem pertencer a universos separados. De um lado, a beleza perfeita e aparentemente imaculada das Quatro Estações de Vivaldi. Do outro, o arrabatamento, o sentimento e a fúria das Cuatro estaciones porteñas de Piazzolla. Mas as duas obras não são ouvidas em sequência. Kremer oferece-nos cada "estação" de Vivaldi sucedida por outra de Piazzolla. A sonoridade barrôca é substituída pelo som do tango argentino num ciclo que se repete quatro vezes preciosas.

Confesso que olhei com desconfiança para este disco. A ideia pareceu-me mesmo bizarra, mas o som seduziu-me rapidamente. O contraste de sonoridades e sensações transportou-me entre os salões da Europa do século XVIII e as ruas de um século XX numa Buenos Aires que nunca conheci. Coloquei este disco a tocar esta tarde... Há quanto tempo é que não tirava a potência toda que este amplificador e estas colunas têm para dar? Há tempo suficiente para saborear hoje como se fosse a primeira vez cada ataque do arco sobre as cordas do violino, cada subtileza do som em que a Kremerata Baltica transformou as partituras de Piazzolla e de Vivaldi. Diz Kremer que "o globo tem dois hemisférios, o que duplica as estações e nos permite encontrar o calor em qualquer altura do ano". Basta, acrescenta ele, "estar aberto e ser capaz de amar".

2004/04/14

Entre-aspas: A loucura dos "sãos" 

«Sobre uma frase de Lincoln: "espero que a minha administração de todos os assuntos seja assim até que, no fim, quando tiver entregue o meu poder e ficar sem um amigo no mundo, me reste um amigo e esse amigo se encontre na profundidade do meu interior". Trata-se aqui mais do que mera vontade de poder. Essa é apenas um sintoma de uma verdadeira doença mental fundamentada na perda de autonomia. Como os que sofrem dela são inteiramente condicionados pelo exterior, sempre esforçados por não ficarem mal vistos, esta doença mental ainda não foi reconhecida como o que é: a negação da realidade em nome do realismo. (...) Essa loucura não reconhecida ameaça a humanidade mais que nunca porque nunca o potencial destrutivo nas mãos dos famintos de poder foi tão grande como hoje. Este tipo de doença difere da do esquizofrénico num ponto essencial: o esquizofrénico encontra-se numa luta consigo próprio para conseguir lidar com os outros; a loucura dos "sãos" é, pelo contrário, uma luta na qual outros têm de ser vencidos para que eles próprios se possam sentir seguros

Conhece alguém assim?!

in A Loucura da Normalidade, Arno Gruen

Música: O Pássaro 

O denso Charlie Parker... Qualquer elogio é redundante para quem projectava música com o seu sopro e moldava as notas com os dedos, como um artista do vidro. Nasceu em 1920 e migrou como os pássaros em 1955, em busca de dias mais quentes.

A Verve pôs Charlie Parker ao nosso alcance numa caixa de 3 CDs, que dá pelo nome The Complete Verve Master Takes. É sublime a descoberta que os nossos ouvidos fazem ao longo destas horas de música. Parker tocou música de toda a gente e toda a gente quis ser tocada por ele. O livro que acompanha esta edição é bonito por fora e por dentro. O que lá está escrito é lindo e os olhos deliciam-se com as ilustrações.

Todos cabiam debaixo das asas de Parker que, como poucos, marcou a história do Jazz. O corpo não aguentou a velocidade da alma. A heroína fez o resto. Quando morreu, com 34 anos, o relatório da autópsia dizia que o corpo aparentava ser de um homem de 64. Mas há uma coisa que não posso esquecer. Sempre que ouço um saxofone, a primeira imagem que me ocorre é de Charlie Parker, the Bird.

2004/04/13

Livros: Liberte a doninha que há em si! 

«Errar é humano. Encobrir é de doninha.»
Scott Adams

Eu pensava que o engenho humano nunca chegaria ao verdadeiro nirvana da gestão. Pensava eu que isso seria inatingível, que haveria sempre qualquer coisa acerca da forma como as pessoas trabalham em conjunto que seria impossível de expressar e até mesmo de compreender. Hoje tenho que reconhecer humildemente que me enganei. Eu vi a luz, meu irmão! E a luz está mesmo aqui ao lado, ao alcance de um braço, tão perto como um livro sobre a mesa. Isto é verdade, até porque se trata mesmo de um livro que, por acaso, estava mesmo em cima da mesa.

Mas não vale a pena prolongar a espera (até porque toda a gente já viu a capa do livro aqui estampada ao lado!). Scott Adams, o criador genial do Dilbert, completou a sua teoria com o The Way of the Weasel. A argumentação é simples e objectiva. Depois de afirmar que "qualquer chimpanzé treinado consegue beber uma grade de cervejas e ainda assim desempenhar a maior parte das tarefas de gestão", Adams atira-nos agora com uma sabedoria ainda mais profunda: "as pessoas são doninhas". Isso mesmo. Assim, sem discussão nem justificações teóricas da treta. Doninhas!

Mostrando mais uma vez a sua honestidade intelectual, o iluminado autor explica-nos logo nas primeiras paginas que sabe que toda a gente já percebeu o que é que ele quer dizer mas que, mesmo assim, tem que fazer render o peixe por mais umas centenas de páginas. Um livro de seis páginas não ia vender lá muito... A malta compreende e até agradece. É que assim temos a oportunidade de aprender a sério como nos podemos divertir no trabalho, como se motiva uma doninha e até (imagine-se!) que as doninhas vêm de Vénus! Este livro é uma revelação. Depois de o ler, ir trabalhar nunca mais será igual...

2004/04/12

Segundos... 

Pode-se estar toda vestida de cetim branco com rosas no cabelo e longe como tudo das canas de açucar e mesmo assim sentir que se está a trabalhar numa plantação.
Billie Holiday

2004/04/11

Música: Redescobrir Morricone 

Ouvi falar deste disco pela primeira vez há umas duas semanas. Andava por aí um CD misterioso no qual três músicos de jazz reiventavam peças de Ennio Morricone, compostas originalmente para bandas sonoras de filmes. Há dias encontrei o disco e parti à sua descoberta. Chama-se Enrico Pieranunzi, Marc Johnson, Joey Baron play Morricone e inclui 11 peças, vivas, frescas e que parecem nunca ter tido outras roupagens que não o jazz com que este trio as vestiu.

Enrico Pieranunzi é um pianista de excepção. Italiano, toca desde os cinco anos e é profissional desde os 19, bebendo as suas influências dos trabalhos de Bill Evans e McCoy Tyner. Marc Johnson ganhou a sua reputação como contrabaixista ao integrar a última formação do trio de Bill Evans, mas tocou também com Stan Getz, Bill Frisel e John Scofield, entre outros nomes grandes do jazz. Joey Baron é um baterista com um currículo igualmente impressionante. Os seus ritmos acompanharam as melodias de Dizzy Gillespie, Stan Getz ou Al Jarreau.

Foram estes três músicos que se lançaram à aventura de recriarem em conjunto as partituras de Morricone. O resultado não podia ser melhor. O próprio Ennio Morricone disse que se sentiu "surpreendido, admirado e eufórico" quando ouviu este disco pela primeira vez, no qual sentiu o seu trabalho redescoberto e respeitado. Pouco se pode acrescentar, excepto que parece que esta banda sonora foi escrita de propósito para esta tarde de sol meio encoberto...

2004/04/10

Livros: Contos de um país esquecido 

Na segunda folha, no canto superior direito está o meu nome e a data. Abril, 1994. Há muito tempo, então, que andava para comprar os dois livros que tinha lido na casa de um amigo. Diziam-me muito, então. Dizem-me muito, ainda. É Portugal que está ali retratado. Um Portugal estranho, esquecido, hoje, por muitos; ainda vivido por alguns, embora nos não pareça. E o que está li escrito refere-se a cerca de 40 anos atrás. Diziam-me muito os contos ali reunidos. Dizem-me muito ainda. E não voltei a encontrar escrita mais simples e orgânica que aquela. Mais bela que aquela...

Contos da Montanha e Novos Contos da Montanha - Miguel Torga

2004/04/09

Filmes: Um filme brilhante 

Não sei como deixei passar este filme... Uma Mente Brilhante teve toda a promoção do mundo, ganhou o Óscar para o melhor filme em 2001 e esteve em exibição em todo o lado. Mesmo assim, não o fui ver quando passou pelos cinemas. Há pouco tempo, recebi o link de um daqueles questionários online que se fazem por piada. Este era para associar um dos filmes dos óscares de 2001 à personalidade de quem responde. Saiu-me o Uma Mente Brilhante e fiquei com curiosidade de ver o filme. Comprei o DVD há uma semana mas só o consegui ver ontem à noite. Genial!

A forma como o filme está construído leva-nos pela vida de John Nash, um matemático brilhante que se fechava sobre si próprio com a desculpa de que não gostava de pessoas e que as pessoas não gostavam dele. Acabou por encontrar o que mais desejava, uma ideia original que revolucionou a economia moderna e, sem saber muito bem como, encontrou uma pessoa que se tornou mais importante ainda, Alicia, com quem casou. E não posso dizer muito mais sem estragar a experiência de quem ainda não viu o filme (ou era eu o único?). Ainda assim, tenho que dizer que, quando se descobre a esquizofrenia de Nash, eu próprio já não sabia o que era "real" e o que não era. Um filme brilhante.

2004/04/08

Segundos... 

Não se pode comer um bolo sem o perder.


Bernardo Soares

Momentos: Rotina... 

Quando a rotina magoa muito
e as ambições se apagam
e o ressentimento voa alto
e as emoções não irão aumentar
e mudamos o nosso rumo, tomando caminhos diferentes

então o amor, o amor irá destroçar-nos outra vez
o amor, o amor irá destroçar-nos outra vez...

Love will tear us apart - Ian Curtis (1980)

2004/04/07

Livros: Porto escondido 

António Tabucchi tem um talento especial para colocar em palavras o sabor de uma certa identidade portuguesa. As inconguências, as suas forças e as fraquezas, as hipocrisias e as fantasias... A cabeça perdida de Damasceno Monteiro é um romance inspirado no caso macabro de Carlos Rosa, morto na esquadra da GNR de Sacavém e cujo corpo foi encontrado decapitado num jardim público. Tabucchi desloca a acção para a cidade do Porto e conduz-nos pela história através dos olhos de Firmino, um jovem repórter de um tablóide popular, sedento de escândalos. E é Firmino quem encontra Manolo o cigano e quem descobre a Dona Rosa e o Doutor Lóton, personagens fascinantes e inesperadas de um Porto escondido. E são eles que lhe abrem as portas para outro universo, mais verdadeiro mas nem por isso mais fácil de aceitar. Um universo em que descobrir a verdade é apenas um passaporte para lugar incerto...

A cabeça perdida de Damasceno Monteiro, António Tabucchi, Publicações Dom Quixote, 1997

2004/04/06

Música: Cartas tranquilas... 

Como se compra um cd só porque a "imagem" nos chamou?! De muitas formas... de forma tranquila. Só com tranquilidade, digo eu, é que estamos capazes de reagir a determinados estímulos. Por serem especiais. Foi uma grande amiga que me ofereceu no Natal passado. Ela própria não conhecia nada destes autores, fixou a capa e resolveu comprá-lo. E ainda bem... é envolvente, tem uma forma de música muito original e quebra com quase tudo que nos habituámos a ouvir. Só por isso vale a pena... embala em ritmos misturados que não reconhecemos de imediato. Passado algum tempo envolvemo-nos e parece que sempre estivémos por ali...

Deixo-vos uma das frases escritas na capa deste álbum, que podemos folhear levemente quase como se de um "mini-livro" se tratasse.

«...only change can happen when you change yourself...» (breathe)

Bliss are marc-george andersen, steffen aaskoven, alexandra hamnede&tchando

2004/04/05

Teatro: Vagabundos? 

Um grito no escuro. As luzes acendem-se. Devagar... Dois vultos no palco. Uma mulher segura um homem, jovem, que jaz nos seus braços como morto. Com poucas palavras, a cena torna-se compreensível. Uma mãe. E o filho, morto. Ambos de branco. O palco está vazio. Mas eles os dois enchem todo o espaço. A mãe fala com o filho e liberta-o. Porquê ele? Porque é que ela lhe pediu que conduzisse? O filho levanta-se. Cada um usa o palco como se fosse todo seu. Cruzam-se sem se verem. Conversam sem se ouvirem. E as vozes cruzam-se como luzes brancas que nos ferem os olhos. E as luzes descem. Mais luzes. Fios. Um labirinto de fios e de luzes no qual as pessoas se perdem. No qual eles se perderam um do outro. Episódios da infância do filho. Episódios da dor de um e do outro. O filho percebe que é "diferente", tem medo. A mãe percebe que o filho é "diferente", tem medo. Mas é no colo dela que ele encontra sempre refúgio. É no colo dela que ele adormece depois da violência. É no colo dela que ele encontra o amor incondicional. E o pai. Ausente do palco mas sempre tão presente. O medo que inspira. A raiva que transpira. Medo de si próprio. Do filho. De se ver no rosto do filho. Sente-se uma decisão num personagem que não aparece em palco. É melhor não pensar. Como se diz a alguém que parte uma perna ou um braço. É melhor não se mexer... Mas a mãe move-se. Procura. E por fim encontra. Encontra-se a si própria e ao seu filho. Mesmo que ele já não esteja ali quando ela o abraça.

Vagabundos de nós está em cena no Teatro Municipal Maria Matos. O texto é de Daniel Sampaio (notável), a encenação é de Luís Osório (simples e tocante) e a interpretação de Márcia Breia e Nuno Lopes (ambos extraordinários).

2004/04/04

Livros: Uma vida de Jesus 

Shusaku Endo nasceu e morreu no Japão. Foi um dos mais importantes romancistas nipónicos, sempre fortemente influenciado pela presença cristâ no Japão. E escreveu (obviamente entre outras importantes obras) um livrinho onde se propõe explicar aos seus conterrâneos a sua visão da figura de Jesus Cristo. Uma vida de Jesus, apesar de não entrar em disputas religiosas, nem se destacar mais que por breves momentos do que está inscrito nos Testamentos. Será uma espécie de Vida de Jesus explicada de forma simples, com factos históricos e geográficos paralelos. O que me agrada, muito. Haverá muitas outras obras com o mesmo propósito. Eu escolhi começar por esta.

Segundos... 

O verdadeiro caminho passa por uma corda que está esticada, não em cima, mas rente ao chão. Antes parece destinar-se a fazer tropeçar do que a ser percorrida.
Franz Kafka

2004/04/03

Música: Rebuçados para todos 

Depois de ter ouvido melhor os N.E.R.D, e especialmente ao ler algumas críticas, reparei que surge quase sempre a referência aos Outkast, como outro grupo de músicos que de alguma forma têm alargado os limites do Hip-hop. E decidi ouvir estes Outkast, para além da faixazinha vagamente irritante que passou nas rádios há alguns meses. E foi uma surpresa. A sério, uma agradável surpresa. Mas vamos por partes.

O álbum em questão é constituido por dois discos (para mim) demasiado distantes para fazerem sentido como um só objecto. De um lado temos Spekerboxxx e do outro The Love Below. O primeiro, da autoria de Big Boi, é hip-hop. Pronto. Muito bem produzido, mas hip-hop. O segundo, bem, o segundo... The Love Below, da autoria de Andre 3000, ou Dre, é um doce embrulhado em papéis de cores sortidas, onde o hip-hop, as baladas R&B (Prototype) e as faixas "perigosamente" folk (Take Off Your Cool, com Norah Jones) se juntam e abraçam numa mesma taça que olhamos gulosamente... Mas há mais, há as duas faixas iniciais, The Love Below, espécie de balada jazz, onde Andre 3000 mostra o lado crooner e Love Hater, cavalgada suja e ligeiramente distorcida, com um swing que nos surpreende e faz bater o pé. Mais poderia ser dito deste álbum a que infelizmente só agora dei atenção.

Ah, não esquecer a faixa 3, "God", onde Andre 3000 fala carinhosamente com Deus, mas "damn, you're a girl..."

2004/04/02

Segundos... 

Às dores inventadas prefere as reais. Doem muito menos ou então muito mais...

Alexandre O'Neill

2004/04/01

Filmes: 21 gramas 

Andava há já algum tempo para ver este filme. Fui adiando e agora percebo porquê. É verdade que eu não estava propriamente num dia com côr, mas ainda assim arrisquei. Imagens velozes, aparentemente desorganizadas, violentas, sedutoras, cores bassas, sons difíceis de desvendar... Fé. Muita fé. Ainda não consigo escrever a reacção àquela fé, mas posso adiantar que não é muito agradável... Um exercício fascinante para quem vê. Reconstrução, associação de imagens como se de um puzzle de tratasse. Brilhante. Poderia acontecer a qualquer um de nós, que na nossa maioria vivemos a tentar encontrar o perdido que afinal estava mesmo ali ao lado... 21 gramas depois.

21 gramas: realizado por Alejandro González Iñárritu, com Benicio Del Toro, Naomi Watts e Sean Penn.

This page is powered by Blogger. Isn't yours?     Feedback by backBlog     Site Meter