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2004/09/29

Filmes: Tsuioku Hen 

Alguém se lembra de uma série juvenil que andou pelas nossas televisões há alguns anos, chamada Samurai X? Os que se lembram, esqueçam agora, por favor...

Toda a espada precisa de uma bainha.

Um rapaz, vendido a traficantes de escravos pelos pais pobres, é o único sobrevivente de um ataque numa velha estrada. Quem o salva ensina-lhe tudo o que sabe sobre uma antiga disciplina de manejo da espada. Antes Shinta, agora Kenshin, é um assassino que pretende apenas um mundo melhor, justificando a sua forma de vida pela protecção dos inocentes. Uma noite, apenas mais uma missão, mata um homem numa viela, que morre a chorar pela sua noiva. Mais tarde, nessa mesma noite, recolhe uma mulher que lhe cai nos braços. Tomoe perdeu toda a hipótese de felicidade com a morte violenta do seu noivo Kyosato às mãos de um impiedoso assassino.

A distância do ódio ao amor é tão profunda como um suspiro.

Em 4 actos, Kazuhiro Furuhashi, de forma perfeitamente madura e adulta, dirige uma trágica encenação de alguns dos mais profundos sentimentos humanos: o amor, a perda e a culpa, no cenário da Era Meijin, Japão do sec XIX. E durante quase 2 horas esquecemos que estamos a ver animação. Deslumbrante...

2004/09/27

Filmes: Mistic River 

E de repente um murro no estômago.

Perseguimos as personagens, a sua queda, lenta, imparável. A estória encaminha-nos, ou tenta, nós fugimos dela, olhamos para o lado, para trás. Fugimos dela ou abraçamo-la.

O murro no estômago continua, ou só a dor do impacto, para ser substituida por outro. Isto é um filme?

Clint Eastwood - Realização

Sean Pean, Tim Robbins, Kevin Bacon, Laurence Fishborne, Marcia Gay Harden, Laura Linney...

2004/09/24

Momentos: Caranguejola (3 excertos...) 

-Ah, que me metam entre cobertores,
e não me façam mais nada...
Que a porta do meu quarto fique para sempre fechada,
Que não se abra mesmo para ti se tu lá fores.

(...)

Não, não estou para mais - não quero mesmo brinquedos.
Para quê? Até se mos dessem não saberia brincar...
-Que querem fazer de mim com estes enleios e medos?
Não fui feito para festas. Larguem-me! Deixem-me sossegar...

(...)

-Quanto a ti, meu amor, podes vir às quintas-feiras,
se quiseres ser gentil, perguntar como eu estou.
Agora no meu quarto é que tu não entras, mesmo com a s melhores maneiras:
Nada a fazer, minha rica. O menino dorme. Tudo o mais acabou.

(Paris, Novembro de 1915)
Mário de Sá-Carneiro

2004/09/22

Momentos: ...do Amor 

Amor é mais do que dizer.
Por amor no teu corpo fui além
e vi florir a rosa em todo o ser
fui anjo e bicho e todos e ninguém.

Como Bernard de Ventadour amei
uma princesa ausente em Tripoli
amada minha onde fui escravo e rei
e vi que o longe estava todo em ti.

Beatriz e Laura e todas e só tu
rainha e puta no teu corpo nu
o mar de Itália a Líbia o belvedere.

E quanto mais te perco mais te encontro
morrendo e renascendo e sempre pronto
para em ti me encontrar e me perder.

Manuel Alegre

2004/09/21

Música: A estrada vive! 

A viagem como forma de vida. É isso que nos ensina Lhasa com as canções hipnóticas de The Living Road. É na estrada que ela se sente em casa, é no movimento que ela se reconhece. E isso está impresso bem fundo na alma desta mexicana americana, filha de uma fotógrafa e atriz e de um professor. Porque foi o movimento que ela primeiro conheceu, a bordo de velho autocarro de escola convertido em casa móvel. Ela percorreu a América com a sua família, como uma nómada moderna. Sem televisão, banida deliberadamente pelos pais dela, as noites da sua infância foram passadas a cantar no meio da sua grande família, com três irmãs, três meia-irmãs e três meio-irmãos. Música, livros, sentir... À margem da grande aldeia.

E foi à margem que Lhasa continuou a viver em Montreal. E foi à margem que ela regressou aos Estados Unidos em 1997 e 1998, mesmo com o sucesso bateu-lhe à porta ao som do primeiro disco. Coisa estranha... E o que fez ela? Partiu novamente, desta vez rumo a França, onde se juntou ao circo de duas irmãs e percorreu a Europa. E a fama, Lhasa? Que vale isso, imagino-a a responder, quanto há emoções tão mais fortes?

Mas a estrada regressa, uma e outra vez. E Lhasa voltou. Desta vez, foi a própria estrada que ganhou vida, a meio caminho entre o canto e o mais puro encanto com o próprio exílio em que vive voluntariamente. E foi assim que surgiu The Living Road, um disco que se ouve em espanhol, em francês e em inglês. Um disco que se descobre pouco a pouco. Canções que enchem sete anos de vida. E a estrada começa aqui, na minha própria porta... Para onde parte?

2004/09/20

Segundos... 

A partir de um certo ponto já não há retorno. Há que alcançar esse ponto.


Franz Kafka - Considerações

2004/09/18

Música: A tranquilidade tem uma voz... 

A noite desce sobre telhados que se escondem atrás de outros telhados. Cores quentes pintam nuvens que imaginamos longínquas mas que pairam sobre nós. Lentamente, o crepúsculo dá lugar à noite e uma aragem fresca entra pela janela aberta... Há um aroma a chocolate no ar e, em vez de um relógio, é o virar das páginas de um livro que marca a passagem do tempo...

Olho para umos meus DVDs. Há um que capta a minha atenção... Norah Jones, Live in New Orleans. Há quanto tempo não o oiço? Vou buscá-lo, coloco-o a tocar, sento-me e deixo-me envadir por aquele ambiente... Se a tranquilidade tivesse uma voz, acho que essa voz seria a de Norah Jones.

Na noite de 24 de Agosto de 2002, a tranquilidade desceu sobre New Orleans. Esta noite, desceu sobre Lisboa. Bom fim-de-semana!

2004/09/17

Entre-aspas: Porque hoje é dia de... 

...desassossego.

«A vida é uma viagem experimental, feita involuntariamente. É uma viagem do espírito através da matéria, e como é o espírito que viaja, é nele que se vive. Há, por isso, almas contemplativas que têm vivido mais intensa, mais extensa, mais tumultuariamente do que outras que têm vivido externas. O resultado é tudo. O que se sentiu foi o que se viveu. Recolhe-se tão cansado de um sonho como de um trabalho visível. Nunca se viveu tanto como quando se pensou muito.»

Bernardo Soares - Livro do Desassossego

2004/09/16

Filmes: A criação de Nathalie 

Parece-me já ter visto este filme há tanto tempo que fiquei surpreendido por ainda o encontrar hoje em cartaz... Na altura em que vi Nathalie não me apeteceu escrever sobre ele. Fiquei dividido. Um final surpreendente? Ou demasiado óbvio, pelos indícios que agora vejo espalhados ao longo do filme? É um filme provocador ou, pelo contrário, moralista?

O filme começa com o quotidiano das personagens interpretadas por Gerard Depardieu e Fanny Ardant. Uma festa falhada, a frieza, a distância... Uma mensagem no telemóvel revela-lhe a infidelidade dele e ela encontra Marlène num bar de alterne. Paga-lhe para ela se transformar em Nathalie e para se envolver com o marido. Com que intenção?

Intenções... A dada altura, as intenções de cada uma das personagens tornam-se confusas, contraditórias. A tensão cresce nos olhares e nas palavras. Palavras contidas, com bastante espaço para o silêncio. O filme alonga-se e desenha uma conclusão que se antecipa. No final, duas pessoas, de mãos dadas, passeiam junto ao rio. É a isso, afinal, que tudo se resume?

2004/09/15

Segundos... 

Se exteriorizares aquilo que está dentro de ti, aquilo que exteriorizares
salvar-te-á. Se não exteriorizares aquilo que está dentro de ti, aquilo que não
exteriorizares destruir-te-á.
Evangelho de Tomé

2004/09/14

Momentos: Conselho 

Renuncia, poeta!
Renuncia!
Sou eu, também poeta, que to digo.
Nenhum verso se deixa encarcerar.
Prender água nas mãos é um jogo antigo,
Que aumenta a sede, em vez de a mitigar.

Temos
O que perdemos
Dia a dia.
O sol da poesia
É lua, em nós.
Sai-nos do peito um canto comovido,
E ouvimos, como um eco arrefecido,
O som da própria voz.

Miguel Torga, Câmara Ardente

2004/09/13

Música: Sons que pairam na memória 

Há qualquer coisa que me cativa no som tranquilo dos Red House Painters ou dos Spain. Às vezes acho que são as guitarras folk, a forma como estas pontuam as melodias com o seu som transparente. Outras vezes acho que é a voz, uma voz que parece não ser mais do que memória no estado puro... Ou, se calhar, não é nada disto. Sou só eu que gosto de me sentar e de me deixar embalar por esta música que fica a meio caminho entre a tranquilidade e a tristeza.

E isto tudo vem a propósito do quê? De um disco chamado Omertà, assinado pelos The Belles. E vem a propósito porque foi este o tipo de som, tão difícil de definir, que encontrei neste CD que nasceu, como manda a tradição, de uma conversa de bar.

Diz a história oficial dos The Belles que os seus dois fundadores começaram a falar sobre música num bar em Lawrence, no Kansas. Mesmo que não tenha sido assim, uma conversa casual num bar dá sempre mais piada à história de uma banda, não é? E parece que estavam os dois fartos de projectos musicais de curta duração e queriam alguma coisa "mais permanente"... Um contrato com uma editora, a Lakeshore, deu-lhes essa oportunidade, de duo passaram a trio e assim nasceu Omertà. Ainda bem. Eu fiquei rendido ao disco logo na primeira faixa...

2004/09/11

Livros: Domu - a child's dream 

Foi a primeira obra de Otomo Katshuiro, criador da excelente série Akira, a ser reconhecida no Japão em 1983.

Imagine-se um bloco de apartamentos, cimento, ferro e vidro, crianças a brincar no jardim comum, velhos a ver passar os carros, e uma série de suicídios a colocar a polícia em rodopio naquele ambiente claustrofóbico. Serão mesmo sucídios? Ou algo muito mais estranho e perigoso se esconde ali? E que papel terá Etsuko, uma criança apenas, no desfecho do mistério?

Domu - A Child´s Dream, com o traço já naquela altura característico de Katshuiro, a violência do branco-e-preto, a forma de congelar a acção em vários quadros e assim multiplicar o efeito de um olhar ou de um sorriso, é uma obra que se podia englobar no género do terror psicológico.

Para fâs de Akira, de Katshuiro ou para quem gosta de ler uma boa graphic novel antes de adormecer...

2004/09/10

Segundos... 

Pela última vez, Psicologia!


Franz Kakfa

2004/09/08

Entre-aspas: Só a ilusão se perde... 

«E de novo acredito que nada do que é
importante se perde verdadeiramente.
Apenas nos iludimos, julgando ser donos
das coisas, dos instantes e dos outros.
Comigo caminham todos os mortos que
amei, todos os amigos que se afastaram,
todos os dias felizes que se apagaram.
Não perdi nada, apenas a ilusão de
que tudo podia ser meu para sempre


Miguel Sousa Tavares

2004/09/06

Livros: Um caso delicado! 

Há cidades que respiram carácter, história e vida. Há outras que seduzem pela forma como o mundo todo se encontra nas suas ruas. Florença está entre as primeiras. Percorrer as ruas que conduzem à Piazza de la Signoria, entrar nos Uffizi, seguir o corredor Vassari do Palazzo Vecchio até ao Palazzo Pitti, respirar o ar que circula sobre a Ponte Vecchio, sentir o Arno fluir debaixo dos nossos pés tal como fluia quando Michelangelo, Da Vinci ou Machiavelli passavam sobre ele. Sentir em cada pedra o peso dos anos e da história. Subir até ao Piazzale Michelangelo e ver o sol a esconder-se atrás da cidade, admirar a configuração de rua onde se esconde um quinto das obras de arte mais importantes do mundo.

É essa a magia que Florença exerce sobre quem a conhece, é essa magia que faz com que cada visitante queria voltar lá uma e outra vez. Nunca será excessivo o tempo que se passa nas suas ruas nem será suficiente para desvendar os seus segredos. São esses segredos triviais que David Leavitt procura no livro com que a Asa resolveu abrir uma nova colecção, O Escritor e a Cidade. Florença, um caso delicado. Haverá palavras para tanto fascínio?

2004/09/05

Música: E agora, menina? 

Antes de mais assumo-me como fã do trabalho de Bjork. E assumo também que não gosto de Medulla, o seu último trabalho.

Lembro-me das horas, muitas, passadas a ouvir o Debut. Lembro-me ainda melhor das primeiras audições de Homogenic, o disco de Bjork que mais gosto e que considero a sua melhor obra, a sua obra-prima, onde tudo parece bater certo, a experimentalidade sonora com a voz de menina, as palavras com a frieza aparente dos ritmos, a própria concepção estética do albúm e do material de promoção. Não preciso de mais nenhum dos discos da islandesa para me deliciar com a beleza da sua obra, apesar de ter todos. Inclusive, este Medulla.

Há uma semana falava com um amigo e estávamos os dois num impasse: tínhamos ouvido o album uma ou duas vezes e ainda não havia certezas quanto ao facto de gostarmos ou não dele. Eu já me decidi: não gosto. Não é que me agrida, mas não me dá nada de relevante ou inovador. E é este o ponto mais interessante e discutível: a suposta inovação, quando se fala de um trabalho que tem por trás um conceito tão estimulante como este. Fazer um albúm absolutamente vocal. O human-beatboxing de Rhazel daria um tom diferente. As participações de Mike Patton seriam fulgurantes e poderosas. As dezenas de vozes femininas, as brincadeiras à capella de Bjork... Seria uma direcção nova para uma fórmula gasta, muito, muito gasta. E?

A minha visão é que nada mudou. Nenhum destes floreados mudou o som ou refrescou a carreira de Bjork. A maravilhosa voz continua lá, mas sem saída. Infelizmente, sem saída à vista.

2004/09/02

Música: Tranquilidade e jazz... 

Há bem pouco tempo, nas minhas manhãs domingueiras de "canal Mezzo", no seu "Clip emotion", descobri uma música que imediatamente me transmitiu uma tranquilidade quase absoluta pela voz suave de um homem de ar doce e quente. Chama-se Richard Bona. Os ritmos são de tal forma suaves que transmitem em simultâneo um pouco de nostalgia e saudade de um mundo que nunca conheci. No sábado passado, numa busca infindável, alguém muito especial finalmente encontrou o único álbum disponível na Fnac: Munia - The Tale, onde Bona é o compositor de toda uma viagem em que nos envolve segurando-nos pela mão, como se de um vôo suave se tratasse. Ainda hoje estou a escutá-lo...

Descubram a sua história de vida, e partilhem o percurso que o transportou para este lado ocidental. No final do seu album, onde podemos saborear as letras que ele próprio escreveu, termina e despede-se com um simples: Peace, Bona.

2004/09/01

Entre-aspas: Há valores absolutos? 

Ontem à noite encontrei um post sobre o aborto num dos blogs que costumo visitar que me incomodou ao ponto de ter acordado hoje a pensar nisso. Não consegui voltar a adormecer e quero partilhar aqui a forma como estou a pensar sobre a questão. Esse post, através de uma imagem chocante, faz um link para um site francês que coloca no mesmo saco a interrupção da gravidez nas primeiras semanas e o assassínio de bebés após o nascimento. Assim. O valor da vida é tomado como um valor absoluto que se sobrepõe a qualquer outro e não admite discussão. Não consigo pensar sobre isto sem me lembrar do que George Herbert Mead escreveu sobre os valores de culto, valores que são considerados assim, como se se sobreposessem a quaisquer outros:

«Acarinhamos a reprovação pública do crime ou, dizendo de outra forma, a vingança pública sobre o criminoso, por causa da sanção emocional que dá a uma comunidade ordenada por uma lei comum. Esquecemos o facto de não podermos manter essa atitude emocional sem marcarmos o criminoso como um excluído da sociedade, ou seja, sem preservarmos num certo sentido uma classe ou uma casta criminosa. E estamos muito pouco inclinados para estimarmos o valor dessa exclusão simplesmente de acordo com o seu poder preventivo porque parece ter um valor absoluto demasiado precioso para ser negado. (...) Ou vejamos o nacionalismo. O valor de culto do patriotismo impede-nos de eliminar a guerra. O método mais simples e mais usado de despertar uma consciência de unidade nacional é apresentar um inimigo comum. É muito mais difícil, se não for impossível, despertar essa consciência a partir da vida comum da própria comunidade. E há alturas em que o patriotistimo parece ter um valor infinito. Nesse sentido, os valores de culto são incomensuráveis, tão grandes que não se conseguem medir. (...) Mas não há valores absolutos. Há apenas valores que podem ser estimados quando os outros valores envolvidos são reconhecidos. E só há um momento em que isso pode ser feito, o momento em que nos defrontamos com um problema real.»

É por isso que acho que é demasiado fácil pensar na "defesa da vida" como um valor absoluto e inquestionável. O que é difícil é reconhecer que há outros valores envolvidos e fazer uma escolha ética quando a defesa de uma vida se opõe à defesa de outra vida. É fácil ver o mundo a preto e branco, dividido entre o bom e o mau e esquecer todos os graus de cinzento e todas as outras cores. Esquecer que o facto do aborto ser crime para proteger o valor abstracto da vida provoca na realidade a morte de tantas mulheres que recorrem ao aborto ilegal. É até demasiado fácil dividir a questão entre quem é a favor ou contra o aborto, como isso fosse o que está em causa. É muito mais difícil discutir a verdadeira questão, que é quem admite que deixe de ser crime que a gravidez possa ser interrompida nas primeiras semanas e quem não o admite. Eu admito-o.

PS: Desde ontem à noite que o Bisturi não está disponível. Não sei se é um problema técnico ou se o Rui (do Bisturi) tirou o blog do ar por causa da polémica que aquele post despertou. Seja qual for a razão, Rui, espero que restaures o Bisturi depressa. Gostava de continuar a ler o teu blog, mesmo quando a minha opinião é diferente da tua. Um abraço para ti.

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