2004/08/30
Música: Acasos...

E este disco tem-me acompanhado pontualmente ao longo dos dois últimos meses, mas voltou em força este fim-de-semana. Tem graça... Os discos também nos conseguem chamar. Houve um tempo que pensava que essa faculdade era exclusiva dos livros. Hoje apeteceu-me escrever sobre ele e resolvi procurar um pouco mais. Foi assim que descobri que "os" Zerowatt são apenas uma pessoa. Ele chama-se Jacob Tardien, escreveu, gravou e produziu o disco, com algumas colaborações, e colocou-o à venda num par de lojas da FNAC em Paris. Quis o acaso que eu tivesse passado por uma delas...
2004/08/29
Segundos...

Franz Kafka, Considerações
2004/08/26
Entre-aspas: Nós e os animais?

«Chamamo-los de estimação e não é por acaso. As relações entre pessoas e animais de companhia podem revelar-se mágicas no combate à solidão e na criação de uma envolvência afectiva recompensadora.(...) O toque é outro elemento essencial para fortalecer os laços que unem homens e animais, ao contrário do que por vezes acontece com irmãos de espécie. A própria natureza dos animais, que não hesitam em saltar para um colo desconhecido, promove esta manisfestação física de afecto, esta aproximação numa sociedade de seres cada vez mais distantes. (...)»
Público - Revista XiS de 21 de Agosto 2003
2004/08/24
Livros: The Witching Hour

Podia ser essa a hora mágica, a Witching Hour... Porque nessa hora tudo pode acontecer. Desejos que se concretizam e se perdem, oportunidades que parecem sonhos mas não o são, palavras que dão voz a quem já a perdeu, crimes que encontram o castigo onde menos o esperam...
E a hora mágica esvai-se em três capítulos surpreendentes, que se desvendam lentamente, marcados apenas pelas palavras de Jeph Loeb e pelos traços de Chris Bachalo. No mundo que se abre nesta hora as cores escondem nomes que escondem histórias que escondem vidas... E é preciso parar na Witching Hour para essas cores ganharem vida...
2004/08/22
Momentos: Outra Guitarra

Com barcos sem velas,
Fugir dos aguazis?
- Remai, diziam elas.
Como, diziam eles,
Esquecer as querelas,
perigos, coisas vis?
- Dormi, diziam elas.
Como, diziam eles,
Encantar as belas
Sem filtros subtis?
- Amai, diziam elas.
Vitor Hugo, Poemas
18 de Julho de 1938
2004/08/20
Filmes: E se Artur fosse romano?

Este Rei Artur é diferente. Não deixa de ser ficção, mas explora uma hipótese que parece, pelo menos, minimamente plausível. E se Artur fosse um comandante romano, meio bretão, que decidiu ficar para defender a Bretanha dos Saxões enquanto o Império Romano colapsava? E se Guinevére fosse uma líder guerreira de uma das tribos locais? E se os cavaleiros da Távola Redonda fossem oriundos de um povo do leste europeu que tinha sido derrotado pelos Romanos? E se a própria távola redonda fosse uma materialização da filosofia igualitária de Pelágio? São estes "ses" que dão uma visão completamente diferente das lendas arturianas, estimulando a imaginação.
Sobre Artur não há (nem me parece que venha a ser encontrada) qualquer certeza. Mas a forma como a suas lendas são reinventadas em cada época e por cada autor é, em si, fascinante. Parece que Artur sai do inconsciente colectivo como o desejo de se encontrar um líder ideal, um salvador do qual se possa depender. E essa história repete-se, e esse desejo dá forma às figuras de D. Sebastião que continuamos a procurar. E misturada com essa história está a nostalgia do passado que se perde, das divindades que são esquecidas e dos modos de vida que morrem. E também por isso gostei deste filme.
2004/08/18
Música: Chama-se Kate, Kate Walsh

Tinham-me dito que o disco fazia lembrar o da Carla Bruni. Não é bem assim... Kate Walsh, inglesa de 20 anos, deve mais às influências de Joni Mitchell e de Tori Amos do que à chanson francesa onde Bruni vai buscar inspiração. E são as suas histórias que dão vida ao disco, são os poemas cantados que fazem Clocktower Park.
2004/08/13
Livros: Wagner em BD?

Roy Thomas e Gil Kane conseguiram adaptar de forma bastante fiel o longo libretto numa graphic novel que mantém um bom ritmo narrativo apesar da complexidade épica das desventuras do deuses nórdicos que revelam fraquezas muito humanas, enredando-se nas teias tecidas com o ouro do Reno e com o Anel com ele forjado. Wotan, Alberich, Fricka, Sigmund, Seiglinde e Siegfried ganham vida de forma surpreendente... O único problema é mesmo uma péssima tradução para português do Brasil, por isso recomendo vivamente a edição original.
2004/08/12
Momentos: As palavras...

as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.
Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam;
barcos ou beijos,
as águas estremecem.
Eugénio de Andrade
2004/08/11
Segundos...
2004/08/08
Entre-aspas: O pássaro...

«Era uma vez um pássaro. Adornado com um par de asas perfeitas e plumas reluzentes, coloridas e maravilhosas. Enfim, um animal feito para voar livre e solto no céu, e alegrar quem o observasse.
Um dia, uma mulher viu o pássaro e apaixonou-se por ele. Ficou a olhar o seu voo com a boca aberta de espanto, o coração batendo mais rapidamente, os olhos brilhando de emoção. Convidou-o para voar com ela, e os dois viajaram pelo céu em completa harmonia. Ela admirava, venerava, celebrava o pássaro.
Mas então pensou: talvez ele queira conhecer algumas montanhas distantes! E a mulher sentiu medo. Medo de nunca mais sentir aquilo com outro pássaro. E sentiu inveja, inveja da capacidade de voar do pássaro.
E sentiu-se sózinha.
E pensou: "Vou montar uma armadilha. Da próxima vez que o pássaro surgir, ele não partirá mais."
O pássaro, que também estava apaixonado, voltou no dia seguinte, caiu na armadilha, e foi preso na gaiola.
Todos os dias ela olhava o pássaro. Ali estava o objecto da sua paixão, e ela mostrava-o às amigas, que comentavam "Mas tu és uma pessoa que tem tudo." Entretanto, uma estranha transformação começou a processar-se: como tinha o pássaro, e já não precisava de o conquistar, foi perdendo o interesse. O pássaro, sem poder voar e exprimir o sentido da sua vida, foi definhando, perdendo o brilho, ficou feio - e a mulher já não lhe prestava atenção, apenas prestava atenção à maneira como o alimentava e como cuidava da sua gaiola.
Um belo dia, o pássaro morreu. Ela ficou profundamente triste, e passava a vida a pensar nele. Mas não se lembrava da gaiola, recordava apenas o dia em que o vira pela primeira vez, voando contente entre as nuvens.
Se ela se observasse a si mesma, descobriria que aquilo que a emocionava tanto no pássaro era a sua liberdade, a energia das asas em movimento, não o seu corpo físico.
Sem o pássaro, a sua vida também perdeu o sentido, e a morte veio bater à sua porta. "Por que vieste?" perguntou à morte.
"Para que possas voar de novo com ele nos céus", respondeu a morte. "Se o tivesses deixado partir e voltar sempre, amá-lo-ias e admirá-lo-ias ainda mais; porém, agora precisas de mim para poderes encontrá-lo de novo."»
Paulo Coelho, Onze minutos
2004/08/04
Filmes: A anatomia do medo

Michael Moore procurou responder a estas perguntas e o filme, ou melhor, o documentário onde apresenta as respostas que encontrou é, no mínimo, chocante. Chocante porque mostra como estamos vulneráveis à manipulação, mesmo a mais óbvia. Chocante mostra com crueza o sofrimento de homens e mulheres provocado por essa manipulação. Chocante porque termina com as palavras proféticas de George Orwell no seu "1984": Só uma população no limiar da pobreza e em guerra constante poderá ser eficazmente controlada. A guerra deixa de ser um meio extremo e passa a ser um fim em si mesma, uma forma de manter as relações de poder dominantes. E um pretexto para começar tudo? O 11 de Setembro já serviu de justificação no Afeganistão e no Iraque. Em vez de eliminado, o terrorismo está cada vez mais forte. What's next Mr. Bush?
2004/08/02
Segundos...

Jean Paul Sartre